Sexta-Feira, 13/Junho/2008
O grande degrau da glória
Esporte é uma coisa divertida - ou trágica - por causa disso: entre você ser um bom atleta e ser um campeão parece existir um abismo colossal. Lembro-me de uma partida do Guga, numa das trajetórias vitoriosas em Roland Garros, quando teve de defender alguns match points contra um adversário sem tradição, vindo do qualifying, se não me engano. Numa entrevista, esse cara confessou ter tremido ao rebater as bolas da partida.
Na verdade, o momento decisivo é a hora em que todos os holofotes estão focados no atleta. Por menor que seja a pressão sofrida ao longo da campanha, é quando é necessário ter sangue frio e aquele “algo mais” capaz de manter o ótimo desempenho e, quem sabe, até superar suas capacidades. Chegar à glória é difícil.
Faltou isso ao Corinthians nesta quarta-feira. Formado por muitos jogadores medianos ou promissores, o Timão amarelou. Jogadores como André Santos, Chicão, Eduardo Ramos, Felipe, Carlos Alberto, Alessandro, Acosta, todos simplesmente tiveram performance muito abaixo do seu usual - e nem houve marcação cerrada ou pressão absurda do Sport (por muitos momentos, no primeiro tempo, a torcida alvinegra fazia mais barulho que os donos da casa). Daí para que uma promessa como Dentinho sinta a responsabilidade é um passo pequeno. Exceto por Herrera e, talvez, Fabinho e William, a tentar despertar o espírito dos outros jogadores, o time sucumbiu à sua própria limitação.
Limitação que nós, corinthianos, custamos a aceitar, por nos lembrarmos de performances fabulosas como no primeiro tempo da final, ou a vitória acachapante contra o Goiás. Talvez seja um elogio ao próprio ego ferido, mas quem sabe não foi a torcida quem fez a diferença? Seria diferente caso o Corinthians viesse com um 2 a 0 contra para reverter no Morumbi lotado sob o apoio insandencido de quase 70 mil corinthianos?
Fato é que falta uma cara de campeão a esse Corinthians. É um elenco de nível muito superior ao da Série B. Com Douglas, Elias e, se voltar à forma de 2006, Dênis, teoricamente capaz de fazer bom papel na primeira divisão. Mas dificilmente levaria a taça. Falta alguém vencedor nesse grupo de jogadores, como eram Ronaldo e Neto no elenco meia-boca de 1990. Aquele atleta cuja confiança se reflita nos demais, que goste de atrair para si os holofotes e deixe tranqüilos outros ainda não acostumados a esse tipo de jogo para não sentir tanto. Seria a torcida capaz de suprir essa ausência? Talvez.
Certamente, não foi capaz nenhum dos abnegados que levou um elenco mediano a uma posição apenas sonhada por um bando de loucos - corinthianos cuja crença cega no poder de superação de seu time seja invejada por quase todas as outras torcidas, agora festejando aliviadas pois, dessa vez, não testemunharam uma festa imensa, redentora, logo após um momento de humilhação suprema. Infelizmente, uma celebração frustrada por uma derrota ridícula, do modo como mais desprezamos - sem gana, sem força, sem raça.
O sonho dourado acabou. Que venha a Série B e o resto do pesadelo.