Top 15 de 2011: Parte 5: Os discos do ano

Que rufem os tambores…

2. Machine Head – Unto the Locust

Dar sequência a um disco tão seminal quanto The Blackening era muito complicado. E, sinceramente, eu não esperava que o Machine Head conseguisse lançar algo do mesmo nível. Quando ouvi Locust, uma ótima música, pensei que seria apenas um bom álbum, nada antológico. Ao por as mãos e ouvidos em Unto the Locust, não precisou mais de 2min da faixa de abertura para perceber que eu estava errado. O Machine Head se mostra brigando com seus limites, tentando adicionar valor à sua música, não ficar preso na fórmula consagrada no trabalho anterior. E funcionou muito bem, pois o disco reflete uma banda amadurecendo sem perder agressividade, honestidade e, se possível, soando ainda mais sincera no que faz – refletido nas letras. O tempo encarregará de dizer se superou o antecessor, mas o selo de confirmação como estandarde do metal americano está garantido.

1. 40 Watt Sun – The Inside Room

Existem bandas que retratam com fidelidade a tristeza. E há quem mostre o sofrimento humano de um forma tão solene que o dia de sol com céu mais azul se transforma numa linda cerimônia fúnebre de um inevitável suicídio pela perda do amor impossível. Nessa  categoria está o 40 Watt Sun. Em seu trabalho de estreia – apesar de estarmos diante de boa parte do finado Warning -, o grupo britânico apresenta apenas 5 músicas, a maior parte passando de dez minutos em lentas, doces e dolorosas procissões de um sentimento de impotência contraditoriamente contagiante, expondo uma fragilidade sublime, linda, como só conseguem os grandes artistas. O instrumental é um doom metal arrastado, mas não esconde diferentes texturas, arranjos densos perfeitos para acompanhar toda a tristeza na interpretação introspectiva confessional de Patrick Walker, com melodias fascinantes, cada verso puxando o próximo para um desenlace cativante e inesquecível. O disco demora para acabar, as músicas são declamações épicas, e, apesar de toda a tensão de se ouvir The Inside Room, sobra um apetite voraz por vivenciá-lo de novo. Como uma obra de arte atemporal, na qual o autor transmite uma sensibilidade muito acima do que conseguimos compreender e expressar. Essencial.

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Top 15 de 2011 – Parte 4: Progredindo para todos os lados

As músicas já são prolixas, não precisa de introdução.

5. Arch/Matheos – Sympathetic Resonance

Se você me conhece um pouco, sabe que sou um aficcionado por Fates Warning. Jim Matheos é definitivamente um dos maiores mestres do metal progressivo, une capacidade incrível de composição, com riffs e solos de extremo bom gosto, dosando sempre melodia, agressividade e melancolia num equilíbrio quase perfeito. Não se engane, Sympathetic Resonance é um disco do Fates Warning recente, mas com os vocais de John Arch em vez de Ray Alder. Apesar de gostar incomparavelmente mais do cantor atual da banda, nem dá para dizer que isso pesa no álbum, pois as linhas vocais foram criadas por Arch, usando todo seu potencial e versatilidade, sem soar tão estridente como no passado, tudo isso em poucas faixas longas e intrincadas, mas nunca chatas. Lição do estilo para outras bandas (leia-se DREAM THEATER).

4. …And You Will Know Us By the Trail of Dead – Tao of the Dead

É difícil classificar essa banda do mesmo jeito que é um saco digitar seu nome inteiro. O Trail of Dead navega em mares entre o progressivo, o psicodélico, o grunge, o metal e o rock alternativo. Essa mistureba toda acaba sempre dando caldo e em Tao of the Dead a viagem te leva longe. Aquela melodia bem radiofônica do nada vira um space rock lisérgico e do nada volta pra algo completamente pop. Disco sem limite algum para as ideias musicais da banda, tudo redondinho e lunático. Como um bom álbum de progressivo.

3. Hammer of Misfortune – 17th Street

Hammer of Misfortune é uma banda à qual eu nunca dei tanta atenção. Quanto tempo perdido. Depois de ouvir e ficar viciado em 17th Street, resolvi dar uma olhada no catálogo deles e percebi que a genialidade do trabalho atual já se encontrava presente nos anteriores. A sonoridade de 17th Street fica num meio termo entre o metal e o prog setentista, com melodias absurdas, interpretações vocais geniais, algumas vezes misturando vocais femininos pra dar um clima mais diferente, quase de musical. Tudo isso acompanhado por um instrumental apuradíssimo, alguns solos de extrema inspiração. Banda que caminha fácil para entrar no rol das minhas “novas favoritas”.

Senhoras e senhores, que venham os campeões no próximo post!

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Top 15 de 2011 – Parte 3: A vida é sofrimento

Essa parte é para quem acredita serem os momentos de dor os responsáveis pela inspiração mais funcional.

9. Ghost Brigade – Until Fear no Longer Define Us

Essa banda finlandesa pode ser definida como um meio termo entre o Amorphis e o Anathema. Ou seja, os arranjos variam de mais de uma música a outra, típico dos mestres finlandeses, há a mistura de vocais guturais com outros melodiosos e limpos como voltou a ser característica dos contenrrâneos, mas a sensação melancólica típica dos clássicos discos da fase anterior do Anathema está lá, com um grau de perfeição que só quem vive no país dos mil lagos consegue descrever.

8. Today is the Day – Pain is a Warning

Há quem tenha por referência do Today is the Day o fato de ter contado com membros do Mastodon no passado. Mas isso significa pouco diante do grind-sludge típico do grupo, que mistura densas melodias sofridas e agressivas do Sludge com um ódio acima do normal, típico do grindcore. Em Pain is a Warning, o grupo texano resolveu forçar um pouco mais a barra e trouxe alguns elementos diferentes, combinando uma seção rítmica bem mais forte, em alguns momentos lembrando até AC/DC, o que confere algo de certo modo inusitado ao seu estilo já bem característico.

7. YOB – Atma

Mais um disco que exala sofrimento por todos os poros, essa banda americana de doom/stoner caminha pelos lados do sludge e de mãos dadas com o progressivo, em faixas longas e imprevisíveis, bem construídas que variam do mais puro desespero, passa por momentos de pura introspecção quase atmosférica para terminar vez por outra de forma explosiva, utilizando um instrumental apuradíssimo, solos bem inspirados, enfim, tudo dentro do esperado de um disco desse estilo, mas quando entregues com tamanha qualidade é garantia de um clássico.

6. Tombs – Path of Totality

O Tombs é uma daquelas bandas de sludge que não apresenta limites em seu som. Um pouco de tudo está aqui: hardcore, post-hardcore, doom metal, progressivo, sludge, black metal, death metal. Fazer tudo isso soar coeso e ter sentido é uma missão ingrata, e o resultado muito acima do satisfatório conseguido pelo grupo novaiorquino é um sinal da grandiosidade deste insano, desesperado e desolador álbum.

E chega de sofrer! No próximo episódio, prepare-se para viajar.

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Top 15 de 2011 – Parte 2: Várias formas de amar Satã

Cansou de ouvir aquele velho black metal de sempre… então prossiga.

13. Ancient VVisdom – A GodLike Inferno

Depois de o Black Metal malvado, séptico e intragável ser moda, a bola da vez é conseguir ser demoníaco de uma forma mais oculta. Se o Ghost ano passado conseguiu se transforamr num fenômeno de marketing, em 2011 a notícia foi o Ancient VVisdom. Musicalmente, é até mais legal. Com passagens folk, melodias absurdas, esse grupo prega o satanismo de uma forma radiofônica que daria orgulho ao Tom Petty e Johnny Cash. Vale a audição com carinho, e com o demônio.

12. In Solitude – The World. The Flesh. The Devil.

Quando ouvi The Witches’ Sabbath, do primeiro disco, pensei que finalmente alguém conseguira fazer uma banda à la Mercyful Fate bem legal. Em The World. The Flesh. The Devil, o In Solitude mostrou ter capacidade de ser muito mais do que isso, como se fosse pouco. Arranjos complexos que ora flertam com a inspiração citada, ora com as aventuras mais progressivas do metal como Nevermore, linhas vocais sublimes de Pelle “Hornper” Åhman, tudo mantendo um clima soturno e agressivo na medida certa para o bom apreciador de um metal clássico com tendências satânicas.

11. Absu – Abzu

Os primeiros segundos começam com um grito e uma linha de instrumental meio thrash que pode indicar tanto um disco do King Diamond quanto a maior putrefação possível e imaginável. Os veteranos da cena black metal norte-americana recaem na segunda opção. Mesclando seu som típico com outras influências mais thrasheiras, a banda faz uma devastação sonora com requintes de crueldade, complexa e envolvente, sem dó alguma de criar uma música de 6 partes em 14 minutos sem deixar o ouvinte respirar . Com uma produção fenomenal, um jeito único de fazer um certo mais do mesmo num estilo tão saturado que já ficou chato. Pra chamar a atenção, deve ser muito bom. Abzu é, com sobras.

10. Wolves in the Throne Room – Celestial Lineage

Como o Absu, o Wolves in the Throne Room é uma banda americana de black metal. Mas, no caso aqui, a extremidade vai para o outro lado. É preciso ser muito bom para trabalhar numa linha de riffs esmagadores, com bateria avassaladora por trás, e fazer tudo isso soar bonito, melancólico, em alguns momentos mais épicos, outros mais psicodélicos. Uma pena o duo de irmãos ecochatos mentores da banda resolveram terminar esse projeto e Celestial Lineage seja o disco terminal do Wolves in the Throne Room. Uma despedida em altíssimo nível de quem pegou um estilo musical e conseguiu dar ares inimagináveis a algo outrora tão monótono.

No próximo episódio, uma ode ao sofrimento e à miséria humana.

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Top 15 de 2011 – Parte 1: Não era bem assim que os conhecíamos

Eu enrolei para fazer minha lista de melhores de 2011. Mas porque havia muita coisa para fazer. Assim, em vez de 10, os 15 melhores. Divididos em 5 capítulos, começando hoje.

15. Mastodon – The Hunter

À primeira ouvida, foi meio decepcionante. Depois da obra-prima Crack the Skye (melhor disco de 2009, com uma larga vantagem), The Hunter é bem diferente. E bem mais simples, direto ao ponto. Para quem ficava numa outra dimensão com as viagens bizarras do disco anterior, bem, não era o que se esperava. Mas, passado o baque, ficou claro não ter havido nenhuma perda de qualidade. O instrumental apurado, balanceado entre a sujeira típica do sludge, o desleixo de uma atitude punk com visões alucinadas de um prog mais doentio, continua tudo lá, mas dessa vez, sem ser muito prolixo, bem mais grooveado e de fácil digestão.

14. Opeth – Heritage

Não dá para dizer que ninguém esperava um disco como Heritage de Mikael Akerfeldt. Já estava claro havia alguns anos que a fórmula do death metal progressivo da banda começava a dar alguns sinais de esgotamento – não significou perda de qualidade, apenas falta de lugares para ir mantendo aquela estrutura sem se repetir. O que era uma ameaça em Watershed virou realidade total em Heritage. O engraçado é como isso não significou em nenhum momento perda de identidade. O trabalho lançado em 2011 soa como Opeth até o pescoço, mesmo sem conter os vocais cookie monsters, com bateria de jazz, com passagens completamente psicodélicas. E a qualidade típica do grupo está intacta.

No próximo capítulo, o demônio que você não conhecia.

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Treinador campeão. E daí?

Dias após a conquista, Tite é alçado ao nível dos técnicos campeões brasileiros, como já foram Geninho, Antônio Lopes e Andrade. A diferença é que a imprensa, em geral, praticamente associa o título de 2012 ao treinador alvinegro, acima de qualquer outro comandado. Por isso, age como se agora ele entrasse no rol dos grandes profissionais do país.

Sem dúvida, a marca do atual campeão brasileiro é seu técnico. A maior parte das vitórias veio por um gol de diferença; a melhor defesa; o maior número de desarmes; o oitavo melhor ataque; a conquista num tenso e fajuto 0 a 0. É tudo a mesma cara do treinador que, em 2004, tirou o Corinthians de posição vexatória na zona de rebaixamento e quase o alçou à Libertadores.

Não à toa, é a mesma cara do treinador demitido ao não sanar problemas com os “galáticos” de Kia e da MSI, incapaz de motivar um elenco milionário para jogar sério contra os juniores do Goiás e ser eliminado com o mesmo grupo pelo frágil Tolima na pré-Libertadores de 2011.

Início avassalador

No entanto, construíram-se alguns mitos em torno da conquista da taça. Por exemplo, as 28 rodadas na liderança vieram em função das dez rodadas iniciais em que o time, em apenas parte delas, atuou bem. Mas, na mesma dezena inicial de partidas, o clube teve memoráveis atuações contra Inter-RS, São Paulo, Vasco e Botafogo, pífias contra Grêmio, Coritiba, Atlético-GO e Bahia, além da vitória normal contra o Fluminense.

No entanto, ao se analisar toda a trajetória do treinador gaúcho no Parque São Jorge, seu retrospecto se parece mais com o do time que atuou a partir do 11º jogo, que ficou até a 34ª rodada sem engatar duas vitórias consecutivas. Nos inúmeros tropeços, e mesmo nas vitórias com atuações medíocres, a liderança escapou poucas vezes, pois os adversários também não conseguiam melhor retrospecto. Denota o equilíbrio do campeonato. Não um desempenho mediano do campeão.

Danilo

Outro dos mitos foi ter recuperado Danilo. Calma lá. Danilo só voltou a atuar pelo Corinthians em 2011 após a saída de Bruno César. Até então, Morais era o predileto. O ex-jogador do São Paulo e Goiás mal atuou no Paulista e só entrou no time no segundo tempo da partida contra o Grêmio pela ausência de outros reservas na posição – Alex fora contratado, mas não podia estrear.

Assim, o meia engatou algumas boas participações que o garantiram como líder de assistências do campeonato, mesmo tendo sido figura apagada, ainda que importante, ao longo da trajetória do título. Tite o manteve no time, corretamente. Mas a sua volta não foi nada senão obra do acaso.

Remontagem

Outra inverdade atribuída ao treinador é a remontagem do elenco. Oras, o esquema de jogo de Tite não mudou em nada o que levou Mano Menezes às conquistas em 2009. O 4-2-3-1 é o mesmo.

Na Libertadores, o time-base era Julio Cesar, Alessandro, Chicão, Castán e Roberto Carlos; Ralf, Jucilei e Bruno César; Dentinho, Ronaldo e Jorge Henrique. Após o desastre frente ao Tolima, caíram fora Jucilei, Roberto Carlos e Ronaldo, todos em péssima forma, substituídos por Paulinho, Fabio Santos e Liedson. Para o Brasileiro, saíram Dentinho e Bruno Cesar, com fraco desempenho no Paulista, em seus lugares vieram William e Danilo, já no grupo, sem contar Émerson e Alex, reposições contratadas a peso de ouro. Adriano não merece nem citação.

Em outras palavras, não houve remontagem, apenas reposição de peças, em todos os casos, para jogadores cujo rendimento não tinha como ser inferior – em alguns casos, já estavam em melhor forma antes mesmo da saída. Tite não precisou quebrar a cabeça para encaixar os jogadores – foi incapaz de fazer o time render com o importante Danilo e a estrela Alex juntos -, apenas precisou motivá-los e mantê-los focados. Tendo em vista o desempenho irregular ao longo de 25 rodadas – a maior parte do campeonato, diga-se de passagem -, não teve tanto sucesso.

Elenco na mão

No entanto, ele conseguiu conquistar a confiança do grupo. Esse, sim, é o seu maior mérito. Para isso, precisou barrar Alex, que nunca de fato conseguiu regularidade, manteve Adriano afastado a maior parte do tempo, Emérson demorou a conquistar posição no ataque, deu força a Julio Cesar após a contratação de Renan, tirou do time Chicão – até tarde demais, tendo em vista seu desempenho desastroso ao longo do campeonato.

Apenas na reta final, conseguiu encadear bons resultados. Precisou de uma derrota indesculpável frente ao lanterna do campeonato num jogo patético para forçar o grupo a voltar o foco na reta final. Ainda assim, vitórias suadas a sangue contra o Atlético-PR, Ceará, Atlético-MG e Figueirense permitiram ao time apenas segurar um ridículo 0 a 0 frente ao medíocre Palmeiras de Felipão para garantir o troféu.

Em outras palavras, o Corinthians campeão tem a cara de Tite. Justo, ainda que mediano, irregular, medroso, mas coerente e esforçado. Em suma, nada que mereça reparos na avaliação feita anteriormente do treinador. É até possível que ele já estivesse entre os melhores do país antes, mas, excetuando Muricy Ramalho – funcional sem ser nenhuma maravilha -, apenas porque hoje a mediocridade é geral.

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Lula, SUS e a mediocridade

Não quero entrar em alguns méritos ao falar desse tema: 1) PT e gestão Lula; 2) mediocridade das pessoas que desejam o sofrimento de quaisquer outros por “raiva ideológica”. São temas pertinentes sempre, mas não é disso que vou falar.

A campanha para o Lula se tratar no SUS pode ser encarada de duas formas: humor “politicamente incorreto” imbecil à la CQC ou crítica ao sistema público de saúde. Eu encaro da segunda forma. Quem dera a gestão petista dos últimos nove anos tivesse transformado a saúde pública em um órgão alheio a esse tipo de brincadeira. Não conseguiu, por mais que alguns órgãos tenham sua competência reconhecida, nem sempre devido aos mandatos do agora doente político.

Fato é que Lula, um homem que sempre faz questão de mostrar suas raízes populares quando lhe é conveniente, nessa hora vai se tratar nos mais caros e também competentes centros da sua doença. Ele está errado? Não, pois, se qualquer pessoa tem condições financeiras de cuidar de sua saúde do melhor jeito possível, não cabe nem sequer pensar duas vezes – ainda que eu, ideologicamente, seja contra o conceito de saúde privada (serviço que deveria ser de prestação estatal exclusiva).

E é nesse aspecto, a imagem horrível de um serviço público prestado de forma ineficiente que eu me apego. Quando Lula ficou doente, o primeiro alvo foi ligar sua imagem popularesca ao sofrimento da população mais humilde. Essa crítica é, sim, válida, apesar do momento e forma inadequados. Importante, no entanto, é um dos motivos pelo qual se faz essa ilação: a classe política, quando precisa de algo, via de regra não recorre aos serviços públicos.

O Congresso Nacional deve possuir seu próprio convênio médico, não restrito a seus servidores de carreira, ou não? A aposentadoria dos cargos eletivos é regida pelo Regime Geral de Previdência Social, ou ele se aposenta por um regime próprio muito mais vantajoso? Algum parlamentar matricula seus filhos em escola pública? Caso não o faça, deduz o custo no Imposto de Renda, se não receber uma verba auxiliar para esse fim? Quantos políticos não contratam segurança particular gastando sua verba de gabinete – nem sempre com a necessidade de um Marcelo Freixo?

Os exemplos são inúmeros de cargos públicos cuja função deveria ser zelar pelo melhor cumprimento das prestações estatais e,
institucionalmente, possuem proteção para utilizar seu respectivo “competidor” particular. Essa é a crítica mais importante embutida na mediocridade desse papo de Lula, ainda que não seja mais o presidente, e um desafiador tratamento no SUS. Medíocre também quem não quer enxergar isso.

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O constrangimento do Rock in Rio

Desde 1991, a ladainha é sempre a mesma. O clã Medina anuncia mais uma edição do Rock in Rio e os “carentes” roqueiros brasileiros – como se não ocorressem megashows do estilo no Brasil – saem reclamando das atrações confirmadas. “Cadê o Rock?”

O Rock in Rio é, antes de tudo, uma espetáculo pretensioso. Um fim em si mesmo, não é a celebração de um estilo musical específico, nem mesmo de uma cultura popular. É um evento grandioso que divulga sua própria megamarca, até exportada para outros rios mundo afora, para desespero dos puristas.

Isso não é nenhuma novidade. Para muita gente fora do Brasil, o “Rock” do nome do evento se liga muito mais ao legal, como em “you rock!”, do que ao rock’n'roll. Por isso, artistas de todos os estilos vêm ao país e fazem o show que lhes deu relevância – seja atualmente, como Kate Perry, Ke$ha e Slipknot, seja num passado distante, nos casos de Elton John, Stevie Wonder e Guns n’ Roses. O máximo a que se permitem é uma pequena ode ao país, mimo ao qual estamos acostumados e há até quem os tome por antipáticos quando não ocorrem.

Com os artistas brasileiros, no entanto, parece existir um enorme constrangimento em fazer parte do Rock in Rio sem representar o estilo que deu nome ao festival. Há quem tente justificar sua participação até na área VIP fazendo alusões do rock’n'roll no que faz, como se fosse um pecado não ser nem um pouquinho roqueiro num evento desse tipo. Outros vão mais longe e resolvem fazer adaptações em seu show típico para “agradar ao público”.

Por isso, passamos pelo constrangimento imbecil de Claudia Leite. Veja bem, tenho asco de Axé, mas, infelizmente, minha civilidade me obriga a respeitá-lo como “gênero musical”. Sei lá por quais motivos essa senhora faz sucesso, mas ela faz. Parece-me óbvio que ela tenta transcender esse público específico de carnavais de Salvador e micaretas, virar uma artista pop. Rock in Rio é uma prova de fogo, no qual o laboratório da patacoada no Miss Universo já era um sinal do resultado evidente.

Terminado o show da sra. Leite, começou a baixaria. Se ela cantou mal ou não, não posso dizer. Não perdi meu tempo vendo – Miss Universo, infelizmente, conferi de relance, e quase vomitei. As críticas do Rock in Rio, unânimes, no entanto, pareciam residir mais em “quanto ela forçou ser algo que não é”, não na qualidade da apresentação. Daí, veio uma resposta sem cabimento da cantora, acusando de forma grosseira as pessoas de nazistas, chamando-as de “paga-pau de gringo que não tá nem aí com a gente”.

Já ouvi demais esse tipo de argumentação pífia. Se Claudia Leite quer respeito de um público externo ao seu cativo, esforce-se e faça-o por merecer. Caso contrário, o que me parece uma decisão mais sábia, como os estrangeiros bem sabem, faça o seu próprio show. Como fez a “parceira” de Axé de certo renome internacional, Ivete Sangalo, ainda assim, sem nos poupar de uma alusão desnecessária à grotesca More than Words, como se tal balada insuportável fosse símbolo de rock’n'roll, mesmo num dia dedicado ao pop chinfrim.

E poderia transformar esse texto numa tese para falar do defunto rock nacional, incapaz de romper com Raul Seixas ou com a medíocre geração do rock oitentista, hoje completamente irrelevantes, e inapto para expressar uma atitude contestadora real, ilustrado pelas
críticas-chavões a alvos tão banais quanto políticos já em seu ocaso. No “Rock-BR”, todos vivem em harmonia e decoraram o discurso bonitinho insosso.

Na próxima edição, caro Medina, uma sugestão: dê ainda menos espaço aos artistas brasileiros. Evite o constrangimento.

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A mediocridade

Desde 2008, o Campeonato Brasileiro virou, de fato, um rally de mediocridade. Cada rodada é uma exibição aleatória de resultados bizarros, em que a posição do time na tabela é pouco além de um mero indicativo do que possa acontecer dentro de campo. Muitos chamam isso de equilíbrio. Mas é, e não adianta negar, um nivelamento mais raso e incompetente possível.

O Corinthians de Tite, ainda líder, sabe-se lá como, é o exemplo disso esse ano. Na arrancada inicial, o time não atuava de forma diferente de como atua agora. A diferença era sua defesa mais segura, aliada à ótima fase dos meio-campistas. Assim, os momentos em que o adversário dominava a partida eram logo abafados pelos desarmes de Ralf e Paulinho, ajudados pelo combate eficaz dado pelo setor ofensivo, e o ritmo de jogo ditado por Danilo.

Ontem, frente ao Coritiba, a partida seguia o mesmo padrão da primeira dezena de partidas de aproveitamente quase perfeito do time comandado por Tite. Jogo modorrento, domínio de posse de bola, uma ou outra chance vinda de algum contra-ataque ou ocasional boa troca de passes. Até o time da casa resolver partir para cima. A diferença? Danilo, arrastando-se em campo, não conseguia segurar a bola, então saiu. Alex, seu substituto, apagadíssimo. A pressão paranaense era frágil, inconsistente – apenas forçava as jogadas por um lado do campo, abusando dos chuveirinhos estéreis- mas, ainda assim, chegou ao gol em bola aérea.

Em suma, hoje, a defesa corintiana é incapaz de conter a pressão adversária. O técnico, vendo o time sempre sob domínio do oponente na volta do intervalo, demora a tomar providências em campo – espera tomar o gol para tentar remediar a situação, como se aguardasse que o meio-campo aos poucos controle o jogo, como era no início do campeonato. O ataque, sempre bem marcado, e o meio-campo, sob intenso trabalho de desarme e início das jogadas, não possuem mais a eficiência de quando o time não metia medo em ninguém.

Esse é o retrospecto do Corinthians a partir da 11ª rodada, quando Papai Joel provou não ser um bicho de sete cabeças vencer o alvinegro paulistana. Situação que Tite não consegue mudar. E que só não tirou o clube da liderança porque os principais competidores não são nenhuma maravilha. Mas, até quando vai se apostar nisso?

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A realidade bate à sua porta

Foi uma das semanas mais incríveis que eu, corintiano, tive. Começou mal, é verdade, com uma atuação desastrosa do Corinthians contra o Palmeiras, mas, pelo menos, a humilhação foi evitada ao se classificar para os pênaltis. A realidade com a qual convivo desde o empate com o Goiás no último jogo de 2010 continua a me assombrar. O time tem bons jogadores, mas, treinado por um técnico medroso ao cúmulo de dizer que uma expulsão adversária o prejudicou, joga como nanico, contra quem seja.

*

Depois, veio a quarta-feira gorda do futebol latino-americano. Não sobrou um brasileiro dos quatro em campo pela Libertadores. Sinal mais do que forte daquilo que eu prego faz tempo: o futebol praticado em campos tupiniquins é medíocre. O técnico responsável por 4 dos últimos 5 títulos nacionais baseou suas equipes campeãs no trinômio bola parada, time pegador e contra-ataque rápido. Ninguém conseguiu reverter o quadro.

Não à toa, não é preciso muito para encarar um clube brasileiro de igual para igual na Libertadores. Basta saber tocar a bola e esfriar o jogo. Via de regra, os times da América-Portuguesa são incapazes de ser combativos e ofensivos ao mesmo tempo (raras exceções, como o Corinthians do primeiro semestre de 2009). Quando resolvem partir para cima, não sabem fazer marcação-pressão direito. Qualquer adversário com um toque de bola razoável impede o sufoco e ainda acha espaços gigantescos na exposta defesa tupiniquim.

No Brasil, prevalece a lógica de Tite: “espere que o adversário virá até você e assim encontrará o contra-ataque no fim do arco-íris”. Mas, e se ele não vier? Ou, e se ele vier organizadamente, sem desespero? Essas questões, poucos técnicos brasileiros estão aptos a responder. Não à toa, vimos quatro eliminações tupiniquins na última
quarta-feira.

O Peñarol precisou de 5min de ataque preciso para derrubar o Internacional, depois apenas esfriou o jogo, permitindo uma pressão desorganizada e inócua apenas ao final do jogo. O Cruzeiro, mesmo sem precisar fazer o resultado, graças a seu ímpeto ofensivo, sempre esteve prestes a cair na arapuca do Once Caldas, o extremo oposto de decidir com inteligência em casa, mostrando a falta de opções táticas.

Grêmio e Fluminense já tinham deixado a eliminação encaminhada no jogo de ida. Os gaúchos perderam em casa e, estrupiados, dificilmente reverteriam o quadro contra a Univesidad Catolica no Chile; já os cariocas, sem padrão de jogo algum em 2011, tiveram uma vitória meio acidental em casa – o Libertad já havia sido melhor no Engenhão, era óbvio que não seria fácil resistir no Paraguai.

Em suma, nenhum dos quatro classificados é um time grandioso. São equipes bem treinadas, com um ou outro jogador mais habilidoso, mas que já sabem de cabeça como enfrentar os mesmos defeitos dos últimos anos dos clubes brasileiros, quando atacar, quando se retrair, como esfriar o jogo, quando enervar o adversário.

******

A quinta-feira, por sua vez, foi surreal. Sim, havia dúvidas quanto ao potencial do Coritiba, que apenas cresceram após os 6 a 0 ao Palmeiras. Mas, mudaram de foco: antes, era se o time paranaense de fato é bom. Agora, será que é tão bom assim?

Não, respondo eu. Nenhum time com Bill pode ser tão bom assim. Porém, cabe ressaltar, o Palmeiras não é grande coisa mesmo. Os jogadores são esforçados, salvo um ou outro caso, e, sob o comando de um bom treinador, conseguiu virar um time competitivo, quando seus atletas estão rendendo próximo do máximo de seu potencial.

Felipão sabe disso, por isso tratou de pilhar seus comandados para o jogo contra o Corinthians domingo passado. Precisaria de todos “voando” para eliminar um rival do mesmo nível, ou melhor. A desclassificação nos pênaltis, injusta pelo apresentado no tempo normal, acabou tendo um efeito devastador na quinta-feira. Não, não abalou os jogadores. Apenas a estafa mental fez com que não tivessem condições psicológicas de render no máximo de suas capacidades, e não havia modo de o treinador do “penta” conseguir mobilizá-los.

Por outro lado, os paranaenses queriam provar ao Brasil que suas 23 vitórias anteriores não eram frutos de Bambalas e Arimateias. Era o grande dia para fazer isso, todas as atenções no jogo do Couto Pereira, esperando dificuldades pela força demonstrada pelo time paulista no domingo. Quando se deram conta da fragilidade adversária, estava 2 a 0 e poderia já estar cinco. Cada gol sofrido abalava ainda mais os comandados de Felipão e, se apenas empolgasse e não inflasse o ego do clube curitibano, uma goleada ainda mais assombrosa se desenharia.

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Volto para o Corinthians: se, com um jogador a mais que o Palmeiras, o time de Tite merecia a derrota, quanto seria Corinthians x Coritiba? Como o treinador gaúcho gosta de montar o alvinegro para jogar atrás e os curitibanos viriam empolgados com tudo, a partida estaria em aberto. Ou pelo menos essa é a esperança que motiva a torcida paulista para a final diante do Santos de Ganso e Neymar. Como se comportará o time praieiro de Muricy?

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