Sexta-Feira, 13/Junho/2008

O grande degrau da glória

Esporte é uma coisa divertida - ou trágica - por causa disso: entre você ser um bom atleta e ser um campeão parece existir um abismo colossal. Lembro-me de uma partida do Guga, numa das trajetórias vitoriosas em Roland Garros, quando teve de defender alguns match points contra um adversário sem tradição, vindo do qualifying, se não me engano. Numa entrevista, esse cara confessou ter tremido ao rebater as bolas da partida.

Na verdade, o momento decisivo é a hora em que todos os holofotes estão focados no atleta. Por menor que seja a pressão sofrida ao longo da campanha, é quando é necessário ter sangue frio e aquele “algo mais” capaz de manter o ótimo desempenho e, quem sabe, até superar suas capacidades. Chegar à glória é difícil.

Faltou isso ao Corinthians nesta quarta-feira. Formado por muitos jogadores medianos ou promissores, o Timão amarelou. Jogadores como André Santos, Chicão, Eduardo Ramos, Felipe, Carlos Alberto, Alessandro, Acosta, todos simplesmente tiveram performance muito abaixo do seu usual - e nem houve marcação cerrada ou pressão absurda do Sport (por muitos momentos, no primeiro tempo, a torcida alvinegra fazia mais barulho que os donos da casa). Daí para que uma promessa como Dentinho sinta a responsabilidade é um passo pequeno. Exceto por Herrera e, talvez, Fabinho e William, a tentar despertar o espírito dos outros jogadores, o time sucumbiu à sua própria limitação.

Limitação que nós, corinthianos, custamos a aceitar, por nos lembrarmos de performances fabulosas como no primeiro tempo da final, ou a vitória acachapante contra o Goiás. Talvez seja um elogio ao próprio ego ferido, mas quem sabe não foi a torcida quem fez a diferença? Seria diferente caso o Corinthians viesse com um 2 a 0 contra para reverter no Morumbi lotado sob o apoio insandencido de quase 70 mil corinthianos?

Fato é que falta uma cara de campeão a esse Corinthians. É um elenco de nível muito superior ao da Série B. Com Douglas, Elias e, se voltar à forma de 2006, Dênis, teoricamente capaz de fazer bom papel na primeira divisão. Mas dificilmente levaria a taça. Falta alguém vencedor nesse grupo de jogadores, como eram Ronaldo e Neto no elenco meia-boca de 1990. Aquele atleta cuja confiança se reflita nos demais, que goste de atrair para si os holofotes e deixe tranqüilos outros ainda não acostumados a esse tipo de jogo para não sentir tanto. Seria a torcida capaz de suprir essa ausência? Talvez.

Certamente, não foi capaz nenhum dos abnegados que levou um elenco mediano a uma posição apenas sonhada por um bando de loucos - corinthianos cuja crença cega no poder de superação de seu time seja invejada por quase todas as outras torcidas, agora festejando aliviadas pois, dessa vez, não testemunharam uma festa imensa, redentora, logo após um momento de humilhação suprema. Infelizmente, uma celebração frustrada por uma derrota ridícula, do modo como mais desprezamos - sem gana, sem força, sem raça.

O sonho dourado acabou. Que venha a Série B e o resto do pesadelo.

Terça-feira, 27/Maio/2008

Guga e os “heróis” brasileiros

Eu não agüento mais ver o mundo todo falando sobre o fim de carreira do Guga - como se ela estivesse acabando agora. Já acabou, faz tempo, isso se um dia o tenista teve, de fato, uma carreira de verdade, não apenas um errante pelo circuito mundial. Sua qualidade é indiscutível, especialmente no saibro. A questão, talvez, apenas, seja essa necessidade de heroicizá-lo pelos resultados obtidos.

Guga não é um coitado. Vem de família de boa formação, nunca passou fome, não sobreviveu a uma infância miserável, muito menos foi um caso inacreditável de um esportista a conseguir resultados miraculosamente. Por mais que a mídia desportiva brasileira não dê a menor importância a qualquer coisa senão futebol - até mostra outras coisas, mas sem destaque -, para escolher o tênis, ele teve suporte financeiro e emocional para construir sua carreira. Se não conseguiu fazê-lo, é outro problema.

Vem dessa constatação o maior demérito de Guga. Tinha muito talento, isso não se discute. Foi, sem dúvida, o maior tenista brasileiro de todos os tempos - homem, claro, não nos esqueçamos de Maria Esther Bueno -, não há comparações com Jaimes Oncins, Luiz Mattars, Ricardos Mellos da vida, como todos os outros foram, são e parecem condenados a sempre ser, graças ao nível desgraçado da organização do esporte brasileiro. Talvez o problema seja que Guga tivesse potencial para ter sido muito mais, e nunca foi - e o futuro do tênis tupiniquim já chora por isso.

Posso ser leviano, afinal, não tenho como avaliar seu grau de contusão. Mas a impressão que sempre tive é a de o tenista nunca ter levado sua carreira devidamente a sério. Mesmo quando jogava, parecia necessitar de algum desafio, de se divertir na quadra, para conseguir levar a partida a sério e ganhá-la. Não à toa, às vezes corria riscos bobos, perdia partidas fáceis. Quando foi número um do mundo, poderia ter feito o que quisesse, mas ficou restrito a um ótimo atleta do saibro. E nada mais. Não é pouco, mas não poderia ser mais? A função do esportista não é desafiar o seu limite?

Guga acabou sendo um manezinho da ilha a suprir, - sem ser sua intenção, mas jamais contra a sua vontade -, a ausência pós-morte de Senna no imaginário do brasileiro de sucesso que passa a perna nos gringos. Na nossa mentalidade de vira-lata, ver um compatriota se impondo perante os outros não serve de exemplo, mas de desforra. O tenista se encaixou nisso. Poderia ser uma marca no esporte tupiniquim, mas preferiu não perder suas ondas a potencializar sua carreira. Andre Agassi quase fez isso, porém, recuperou-se a tempo de ser um dos maiores de sua geração.

No fundo, não sei quão ruim é isso. O tenista atraiu a simpatia por jamais ter deixado de ser um macunaíma do tênis - alguém a divertir os gringos com seu cabelo esquisito, seu jeito bobalhão, completamente avesso à competição voraz do esporte. Diferentemente de outros heróis brasileiros que trabalharam sua imagem para transformá-la num ícone, como Pelé, até num mártir, como Senna, ou cujo mito se deu pelo fim trágico, como Mané Garrincha. Guga, agora, vai brincar de mochileiro pela Europa. É estranho, mas, talvez, esse seja seu maior mérito. Infelizmente, ninguém parece valorizar isso.

Sábado, 24/Maio/2008

Do metal melódico à chatice interminável

Algumas vezes, como todo ser humano, eu sou tomado por curiosidade mórbida. E, apesar de nunca ter sido um fã fervoroso do estilo vocal agudinho gay, fiquei tentado a baixar o disco novo do Michael Kiske, Past in Different Ways, em que ele regrava clássicos do Helloween com uma “nova roupagem”. Inocente, acreditava na possibilidade de vir algo interessante daí, meio numa linha Anathema, ou até mesmo um pop-rock de qualidade, afinal, melhorar metal melódico não é nenhuma tarefa das mais difíceis. O resultado, porém, é uma choradeira insuportável sem fim.

Parece tudo música de igreja. Não sacro-santa, como uma nova faixa do Judas Priest (”War”) ou o último disco do Manowar. Aquelas canções de missa de crente, à la Padre Zezinho. Aquele violão semi-alegre, os versos cantados como se fossem pregações, mas nunca com um grau de excitação do Padre Marcelo Rossi, sempre mantendo uma serenidade insossa, mesmo em canções belas como “Longing” ou animadas como “When the Sinner” e “A Little Time”. O vocal, que deveria ser o ponto forte, é triste. Muitas vezes chorado, outras tantas num ar de ressentimento, quando, de repente vem aquele grito agudo insuportável, sem pé nem cabeça.

Eu baixei a versão promocional, e elas vêm com os já tradicionais voice-overs para obrigar neguinho a comprar o CD depois (ou fazer o download de novo quando o álbum sair no mercado). Normalmente, eles são um saco, mas confesso ter achado bizarro dessa vez. Naquele clima já citado, de repente o volume abaixa e vem uma mensagem. Felizmente, não era nada gospel do tipo “Thy kingdom shall cometh”. Sim, um cara com voz lembrando o mestre Rainier Wolfcastle nos informando(?) ser o novo disco de Michael Kiske.

Agora, às pedras. Já deu no saco essa lenga-lenga do Michael Kiske chorão. Cada disco é um porre novo, talvez exceto pelo Place Vendome - e reza a lenda que ele foi enganado! -, e esse Past in Different Ways é uma tentativa desesperada de ganhar dinheiro com os fãs do antigo Helloween, já devidamente vacinados contra sua insípida carreira solo ou outro nome imbecil que se dê a ela, como Supared. Kiske tem uma voz fantástica, um alcance absurdo, mas é um cantor medíocre e um compositor horroroso. Não tem o menor talento e precisa de outros direcionando seu vocal para sair algo minimamente razoável.

Se é para ganhar dinheiro, o vocalista deveria engulir o orgulho besta de uma vez por todas e aceitar uma turnê de reunião do Helloween para tocar as músicas do Keepers e pronto. Não que os seus desafetos alemães precisem disso - as turnês até parecem rentáveis lá fora -, mas grana é bom e ninguém vai perder uma chance de ir ao topo de novo. O Michael Weikath é insuportável, mas é o dono da galinha dos ovos de ouro. Unir-se a ele é a solução. Não há nada de errado em lucrar com o passado, apenas é estúpido menosprezá-lo como foi feito nesse disco novo. Quem sai perdendo é sempre Michael Kiske.

Lógico, e o infeliz que se presta a ouvir essa imbecilidade até o final…

Quarta-feira, 21/Maio/2008

A fase desgraçada nas quatro linhas

Não foi dessa vez. Como disse em um post anterior, queria ver o Manchester terminando a temporada sem ganhar nada, mas levou tudo. Todavia, não altera o fato de ter sido um jogão em Moscou, bem à sulamericana. De bom nível técnico (nada comparado às jornadas históricas do Liverpool contra Arsenal e Chelsea), brigado, tenso, catimbado e sofrido. O empate no tempo normal e na prorrogação foi justo e só escancarou um tremendo equilíbrio entre as duas equipes.

Disputa de pênaltis é sempre uma escolha injusta de heróis e vilões. Estava preparado para soltar rojões de alegria ao ver Cristiano Ronaldo se transformar no garoto feio da decisão, ao perder sua cobrança devido à sua empáfia - tentou ser genial e dar uma paradinha de craque e, por isso, bateu sem força para a fácil defesa do goleiraço Petr Čech. O tcheco merecia ser o nome do jogo tanto quanto John Terry,  zagueiro que salvou um gol certo dos devils na prorrogação, mas escorregou quando teve a chance de sair consagrado com o título da Champions League. Pelo menos, ufa, a glória não ficou com o Beletti.

Ao final da competição, o dinheiro “meio esquisito” de Abbramovich não venceu a chatice do “simpático” Alex Fergusson. Cristiano Ronaldo fez ótimo primeiro tempo, fez gol, sempre foi perigoso, mas não teve a atuação de gala de um “melhor do mundo” no jogo decisivo, além de ter visto sua insolência ir por água abaixo. Didier Drogba teve atuação apagada e sumiu, acabou expulso. O título ficou em boas mãos. Mas , confesso, poderiam ser quaisquer outras…

Só coroa uma fase desgraçada que atravesso no futebol. O Corinthians na Série B, quando teve a faca e o queijo para massacrar o Botafogo no Engenhão, perde e ainda se complica em estranhas suspensões para o jogo de volta no Morumbi - cujos ingressos poderiam estar à venda desde hoje, mas só vão estar disponíveis nessa quinta, feriado, com uma provável fila quilométrica sob horas de encheção de saco.

Do forma como as coisas andam, daqui a pouco o Boca Juniors cai fora e abre alas para um brasileiro ser campeão. Que pelo menos o Fluminense me dê uma alegria e faça o favor de eliminar os bambis. Não acredito em Renato Gaúcho, muito menos em Dodô, mas não custa torcer para algo pelo menos dar certo nesse dia.

Domingo, 18/Maio/2008

À beira da insanidade, a felicidade

Foram duas semanas pelas quais eu esperei os últimos dez anos. Ok, ok, talvez um pouco menos. A última vez que o Queensrÿche, uma das minhas duas bandas favoritas de todos os tempos - a outra é Savatage - aportou em terras brasileiras foi em 1997, quando, jovem e sem muita noção das coisas, jamais havia viajado para ver um show mais de uma vez em locais distintos apenas pelo puro fanatismo.

Só em 2001, quando o finado Savatage aportou por essas terras e eu acompanhei os cinco shows, esse fascínio por viajar para ver uma banda começou. E a espera para fazer o mesmo com o Queensrÿche só acabou neste mês de maio, após inúmeros boatos ano passado e o adiamento da tour inicialmente programada para março. Deveria ter visto todos as apresentações, mas, infelizmente, não pude ir à Belo Horizonte sábado passado. Assim, compareci apenas no Rio de Janeiro, como já disse no post anterior, além de Curitiba e, obviamente, São Paulo. Leve-se em consideração os planos iniciais de vê-los em Porto Alegre, com passagem comprada e tudo, não realizada pelo cancelamento da data.

Soa como insanidade gastar uma grana alta para ver shows, mas já é algo tradicional para mim. Como escrevi na minha “descrição” no Whiplash, vivo à pão e água durante onze meses para passar alguns dias das minhas férias na Europa assistindo bandas cuja chance de passar por aqui é mínima. Quando elas vêm para cá, tendo a não querer perder nenhum minuto. Nessa vida muitas vezes vazia de significado, esses se transformam em momentos inesquecíveis.

Mas viajar para ver shows é sempre muito legal. Toda a ansiedade de se deslocar na esperança de dar tudo certo, ir a lugares desconhecidos, esperar para ver a reação de públicos diversos, verificar como muitas pessoas se assustam ao saber que você gosta tanto de uma banda a ponto de fazer isso, tudo é de uma excitação impressionante. Sem contar a expectativa de poder conferir apresentações diferentes, de repente ouvir aquela música só tocada naquele dia naquela cidade, o suficiente para deixar um sorriso na sua cara por alguns dias.

O problema é quando tudo isso acaba. Sobra uma sensação de volta à vida comum, muitas vezes deprimente. Gastei boa parte do dia de ontem nas fotos e vídeos que fiz dos shows, resignado por perder uma apresentação, felicíssimo por ter visto outras três sabendo de mais duas ainda para conferir daqui a um mês, mas insatisfeito de tudo isso ter acabado e, agora, vem por aí uma semana comum de trabalho. Sem agitação, sem nada de diferente, apenas a volta à rotina.

Felizmente, por apenas um mês. Depois, férias e lá vou eu de novo ao velho mundo. Até lá, devo atualizar essa página com mais freqüência.

Domingo, 4/Maio/2008

A dengue e a praga do Rio

Como todo gordinho metaleiro metido a intelectual, praia nunca foi muito a minha praia. Talvez por isso eu não conheça o Rio tão bem quanto alguém fanático por viajar deveria.  Mas esta semana será cheia, graças a uma viagem à cidade maravilhosa, cheia de dengue e de Ronaldos mil atrás de travestis (não que tenha algo errado nisso - com relação às bonecas, claro, pois na doença, tudo está insanamente sem sentido, ou, pior, logica e racionalmente adequado à política de saúde pública brasileira).

Não vou ao Rio a trabalho, mas por diversão. Verei dois shows: Whitesnake, na quarta à noite (saio de SP no mesmo dia após o expediente), e Queensrÿche, na quinta-feira, quando retorno na madrugada de sexta para um dia comum de trabalho. Não viajaria tanto pela trupe do velhão bizarro David Coverdale, mas o preço camarada da Gol criou a opção e o fato de estarem esgotados os ingressos no Credicard Hall transformou em obrigação.

Mas o que é barato poderia ter saído caro. Como o Citibank Hall, ou Claro Hall, ou Metropolitan, fica na região da Barra da Tijuca, caso não tivesse um amigo (Ed) pra me salvar com acomodação, estaria até agora em desespero graças ao preço dos hotéis na região. Sem contar os inúmeros gastos de táxi nos deslocamentos. Felizmente, não foi necessário.

Mas aí reside uma das questões pelas quais eu não tenho muita vontade de conhecer o Rio. Fui três vezes à cidade, e sempre achei tudo aquilo lá um lixo - e não é birra de paulistano, visto que tenho ótimos amigos cariocas e não acho a minha cidade grande coisa. Sempre fiz bate-e-volta (ir em excursões, ou descer do avião para o show e de volta ao aeroporto), e se não fossem esquemas muito bem traçados ou ajuda inestimável de amigos, eu teria me quebrado por lá. E, veja bem, não sou nenhum idiota de viajar, sempre me virei muito bem.

Para uma cidade que deveria viver - muito bem - de turismo de diversão, o Rio é uma desgraça. A infraestrutura é porca, tudo parece ser mal localizado, o trânsito é um caos, a rede hoteleira é muito cara, enfim, nada para apetecer um viajante a passar alguns dias por lá - a não ser pelos mitos da cidade maravilhosa. É claro, talvez mude completamente de opinião quando tiver a chance de ficar por lá mais tempo e aprender a dominar o local, mas, olhando de longe, não sinto a menor vontade de fazer isso.

No entanto, se sexta-feira retornar a São Paulo sem dengue e sobreviver a mais uma travessia da Linha Vermelha de madrugada, já estarei feliz. Aí é começar a me preparar para uma nova aventura européia em junho.

Quinta-feira, 1/Maio/2008

Reencontro

Ainda estou embalado pela fantástica noite de ontem no Morumbi. Tomado por 51 mil corinthianos ensandecidos, cuja única missão era mostrar que acreditavam no time, e não deixá-lo desistir. Era necessário ser um robô para não sentir o efeito. Cada atleta do time percebeu a obrigação de dar o máximo de si para conseguir o resultado. Era o único desejo da torcida.

O Goiás tremeu. Era impossível não tremer. Fazia anos que não via o Corinthians em campo dessa forma, com sangue nos olhos, cada carrinho parecia um lance magistral, cada espanada na defesa em direção à arquibancada gerava gritos desenfreados, com gols arrancados à força. Para ser sincero, desde 1997, quando Dualib iniciou a era das parcerias milionários, e vieram Excel, HMTF e MSI para formar esquadrões de alto nível técnico. Não foi esse o time que eu aprendi a amar ao longo da minha infância.

A fase desgraçada atual é como parte de um processo de cura. Depois de dez anos com fartura de títulos e craques conseguidos não pela competência administrativa de um clube ciente da força de sua torcida, mas fruto de parcerias responsáveis por injeções milionárias de recursos, era necessário se reencontrar com o passado, quando um time nunca muito técnico se sobressaía graças a fanáticos contagiantes cuja maior alegria parecia estar lá, dentro das quatro linhas, esperando um mísero gol para minimizar todos os outros problemas da vida.

Ano passado, o purgatório foi necessário para reacender essa paixão. De ir a campo sabendo da limitação do time, de ter a ciência de que apenas com algo mais se evitaria o inferno - e nos achávamos esse fator diferencial. Não foi possível impedi-lo, mas a torcida voltou a se enxergar como sempre fora: não mais uma massa de reclamões apaixonados e insatisfeitos, obrigando jogadores de renome a cumprir sua obrigação, como ao reverter a goleada humilhante frente ao Cianorte em 2005, mas de humildes sofredores cuja paixão transcende a técnica futebolística, até a lógica.

Foi esse o diagnóstico da noite de 30 de abril de 2008. Mano Menezes, que já havia feito sucesso no Grêmio exatamente por saber trabalhar essa característica da torcida gaúcha em prol de seus jogadores, fez o mesmo com maestria no Morumbi. Havia um time limitado tecnicamente, mas dedicado como há muito não se via, empurrado e cativando uma massa de corinthianos, devastando sem piedade um adversário favorito, acuado e atônito. Como nos velhos e bons tempos.

E que seja assim para sempre.

Segunda-feira, 28/Abril/2008

Desejos sobre a Champions League

Amanhã começam os jogos de volta das semifinais da Champions League e descobriremos quem vai a Moscou - onde eu também deveria ir esse ano, mas não pude - para a disputa da finalíssima do único torneio com jogos de futebol de alto nível técnico no mundo (Liverpool 4×2 Arsenal deve ter sido a partida mais fantástica e bem jogada dos últimos dez anos!).

Odeio o Manchester United. Tenho asco do Cristiano Ronaldo, apesar de reconhecer a grande temporada que vem fazendo. Logo, torcerei para a zebra catalã invadir o Old Trafford e deixar os diabinhos vermelhos de fora da final. O empate sem gols do jogo de ida foi um bom resultado para o time do Rijkaard, e seria divertido ver o Messi entortando os zagueiros do clube inglês para garantir um empate com gols - um do Henry, lógico! -, obrigando o “sir” Alex Fergusson a engolir a empáfia por ter sido um cagão em Camp Nou para segurar o 0×0. E o mais legal de o Barcelona ir à final é não sermos obrigados a aguentar a mídia burra brasileira dizendo que isso só aconteceu graças à magia do Ronaldinho Gaúcho.

Mas, quanto ao circo brasileiro, corremos um risco sério. E ele se chama Belleti. O jogador mais sortudo do mundo, campeão mundial pela seleção em 2002, fez gol de título pelo Barça na Champions League em 2006, se não tem nadinha de nada de futebol para mostrar, sem dúvida tem estrela. E o Chelsea, uma Portuguesa londrina, sem querer ofender os patrícios donos das padarias, ficou com uma mão na vaga para a final após o gol reesível ganhado no final da primeira partida contra o Liverpool em Anfield Road, no primeiro jogo. Imagina uma outra taça desse nível no curriculum do ex cruzeirense e sãopaulino?!

Ainda assim, não sei para quem torço. No fundo, há um desejo sádico de ver o sucesso do Chelsea, para escancarar o nível imoral do futebol, em que a grana suja do Abbramovitch leva um clube medíocre ao título da mais importante competição interclubes do mundo, mas todo mundo faz vistas grossas. Por outro lado, o Liverpool é um inglês de tradição no torneio e, sem fazer muito barulho, monta ótimas equipes que nunca praticam a “molecagem esperta tupiniquim”, mas sempre brilham, para desespero dos nostálgicos do futebol-arte.

Se o título não for para Old Trafford, já ficarei feliz. E, mais ainda, se o Cristiano Ronaldo terminar a temporada sem a Premierleague, a Champions League e a Euro. Será divertido ver como a France Football e a FIFA vão se virar para dar seus troféus ao único jogador de nível do ano, mas que, então, terá sempre falhado nos momentos chaves das conquistas.

Segunda-feira, 28/Abril/2008

A Isabella já morreu, mas eu estou vivo e não tenho nada com isso

Sim, às vezes é bom deixar isso claro. Apesar de formado em direito e jornalismo, logo, tenho uma vocação acadêmica (argh) para querer dar colherada em qualquer assunto, tento em vão me marcianizar e não acompanhar nada sobre a cobertura desgraçada da mídia brasileira sobre o caso. Não, não sei direito como a menina morreu, não sei quem é acusado, não leio nenhuma matéria sobre isso no jornal, mudo de canal quando a televisão aborda o tópico de qualquer forma, apenas o rádio na minha malfadada hora de acordar me abastece de escassas informações mal compreendidas. No entanto, não refuto comentá-lo.

Falo sobre o assunto porque, apesar de compreensível pelo porco nível da mídia brasileira, não há um canal de imprensa capaz de direcionar a comoção gerado pelo caso para uma discussão útil, como, por exemplo, a punição aos pais que se utilizam de castigos físicos contra os filhos. Alguns poucos meios de comunicação tentam compreender este “fenômeno de audiência” procurando algo mais profundo além de uma exploração sensacionalista da morte de uma menina não favelada, como, por exemplo, a compreensão do estado da criança na sociedade brasileira, de um artigo publicado na Folha de São Paulo alguns dias atrás.

No entanto, vemos um circo montado pela imprensa e pela polícia atraindo toda a atenção para o caso, como se o Jornal Nacional fosse a nova novela das oito, da qual “estamos” órfãos desde que o Ministério Público resolveu forçar a barra para a classificação de horários e a doce historinha da família brasileira da Rede Globo foi atrasada para às nove horas. Espera-se sempre o próximo capítulo com a descoberta de novas pistas - e até a “revista” Veja brincou de ser Contigo ao dar capa para a opinião da Polícia como se houvesse roubado do laptop do autor o roteiro do episódio seguinte -, enquanto não culmina com a última cena, tal e qual num filme americano, após um acalorado debate entre advogado de defesa e promotor, um júri condene o casal e, enfim, justiça estará feita.

Para ser perfeito, só se fosse no Texas e eles fossem mandados à cadeira elétrica. Mas, no Brasil, é capaz de reacender a infrutífera e absurda discussão sobre a pena de morte. Claro, isso se a Xuxa não resolver ter um novo filho até lá e o resultado do julgamento, anos depois, seja apenas rodapé do caderno de cidades.

Segunda-feira, 28/Abril/2008

Regras. Leia-as

Limpe os pés antes de entrar.
Fique à vontade.
Volte sempre.
E não perturbe.
Obrigado.