Dias após a conquista, Tite é alçado ao nível dos técnicos campeões brasileiros, como já foram Geninho, Antônio Lopes e Andrade. A diferença é que a imprensa, em geral, praticamente associa o título de 2012 ao treinador alvinegro, acima de qualquer outro comandado. Por isso, age como se agora ele entrasse no rol dos grandes profissionais do país.
Sem dúvida, a marca do atual campeão brasileiro é seu técnico. A maior parte das vitórias veio por um gol de diferença; a melhor defesa; o maior número de desarmes; o oitavo melhor ataque; a conquista num tenso e fajuto 0 a 0. É tudo a mesma cara do treinador que, em 2004, tirou o Corinthians de posição vexatória na zona de rebaixamento e quase o alçou à Libertadores.
Não à toa, é a mesma cara do treinador demitido ao não sanar problemas com os “galáticos” de Kia e da MSI, incapaz de motivar um elenco milionário para jogar sério contra os juniores do Goiás e ser eliminado com o mesmo grupo pelo frágil Tolima na pré-Libertadores de 2011.
Início avassalador
No entanto, construíram-se alguns mitos em torno da conquista da taça. Por exemplo, as 28 rodadas na liderança vieram em função das dez rodadas iniciais em que o time, em apenas parte delas, atuou bem. Mas, na mesma dezena inicial de partidas, o clube teve memoráveis atuações contra Inter-RS, São Paulo, Vasco e Botafogo, pífias contra Grêmio, Coritiba, Atlético-GO e Bahia, além da vitória normal contra o Fluminense.
No entanto, ao se analisar toda a trajetória do treinador gaúcho no Parque São Jorge, seu retrospecto se parece mais com o do time que atuou a partir do 11º jogo, que ficou até a 34ª rodada sem engatar duas vitórias consecutivas. Nos inúmeros tropeços, e mesmo nas vitórias com atuações medíocres, a liderança escapou poucas vezes, pois os adversários também não conseguiam melhor retrospecto. Denota o equilíbrio do campeonato. Não um desempenho mediano do campeão.
Danilo
Outro dos mitos foi ter recuperado Danilo. Calma lá. Danilo só voltou a atuar pelo Corinthians em 2011 após a saída de Bruno César. Até então, Morais era o predileto. O ex-jogador do São Paulo e Goiás mal atuou no Paulista e só entrou no time no segundo tempo da partida contra o Grêmio pela ausência de outros reservas na posição – Alex fora contratado, mas não podia estrear.
Assim, o meia engatou algumas boas participações que o garantiram como líder de assistências do campeonato, mesmo tendo sido figura apagada, ainda que importante, ao longo da trajetória do título. Tite o manteve no time, corretamente. Mas a sua volta não foi nada senão obra do acaso.
Remontagem
Outra inverdade atribuída ao treinador é a remontagem do elenco. Oras, o esquema de jogo de Tite não mudou em nada o que levou Mano Menezes às conquistas em 2009. O 4-2-3-1 é o mesmo.
Na Libertadores, o time-base era Julio Cesar, Alessandro, Chicão, Castán e Roberto Carlos; Ralf, Jucilei e Bruno César; Dentinho, Ronaldo e Jorge Henrique. Após o desastre frente ao Tolima, caíram fora Jucilei, Roberto Carlos e Ronaldo, todos em péssima forma, substituídos por Paulinho, Fabio Santos e Liedson. Para o Brasileiro, saíram Dentinho e Bruno Cesar, com fraco desempenho no Paulista, em seus lugares vieram William e Danilo, já no grupo, sem contar Émerson e Alex, reposições contratadas a peso de ouro. Adriano não merece nem citação.
Em outras palavras, não houve remontagem, apenas reposição de peças, em todos os casos, para jogadores cujo rendimento não tinha como ser inferior – em alguns casos, já estavam em melhor forma antes mesmo da saída. Tite não precisou quebrar a cabeça para encaixar os jogadores – foi incapaz de fazer o time render com o importante Danilo e a estrela Alex juntos -, apenas precisou motivá-los e mantê-los focados. Tendo em vista o desempenho irregular ao longo de 25 rodadas – a maior parte do campeonato, diga-se de passagem -, não teve tanto sucesso.
Elenco na mão
No entanto, ele conseguiu conquistar a confiança do grupo. Esse, sim, é o seu maior mérito. Para isso, precisou barrar Alex, que nunca de fato conseguiu regularidade, manteve Adriano afastado a maior parte do tempo, Emérson demorou a conquistar posição no ataque, deu força a Julio Cesar após a contratação de Renan, tirou do time Chicão – até tarde demais, tendo em vista seu desempenho desastroso ao longo do campeonato.
Apenas na reta final, conseguiu encadear bons resultados. Precisou de uma derrota indesculpável frente ao lanterna do campeonato num jogo patético para forçar o grupo a voltar o foco na reta final. Ainda assim, vitórias suadas a sangue contra o Atlético-PR, Ceará, Atlético-MG e Figueirense permitiram ao time apenas segurar um ridículo 0 a 0 frente ao medíocre Palmeiras de Felipão para garantir o troféu.
Em outras palavras, o Corinthians campeão tem a cara de Tite. Justo, ainda que mediano, irregular, medroso, mas coerente e esforçado. Em suma, nada que mereça reparos na avaliação feita anteriormente do treinador. É até possível que ele já estivesse entre os melhores do país antes, mas, excetuando Muricy Ramalho – funcional sem ser nenhuma maravilha -, apenas porque hoje a mediocridade é geral.