Evandro Rogério Roman virou celebridade. De novo. Após aquela arbitragem fantástica no jogo entre Londrina e Engenheiro Beltrão (cuja filmagem está rendendo um belo processo contra o autor das imagens, pelo nobre árbitro), o juiz paranaense transformou-se na estrela de Cruzeiro x Palmeiras, ocorrido quarta à noite em Belo Horizonte. Tudo porque não teria dado quatro(!) pênaltis a favor do clube mineiro.
Não estou aqui para discutir os lances. Até porque isso é inútil. O jogo já acabou, não é mesmo? Prefiro falar sobre como a imprensa vem falando do assunto. Por exemplo, ontem eu vi muito mais os lances dos pênaltis do que os gols do jogo. É nesse ponto que reside o erro de toda a abordagem futebolística atual. E por isso Roman é o nome do jogo, não Vágner Love, com seu gol decisivo, ou Kléber, por dar tchauzinho para a organizada palmeirense (embora isso esteja rendendo também).
A discussão da arbitragem, raras exceções (a mais notável, e polêmica, de Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil), é que se aborda sempre o pontual, ou seja, os erros em si. Poucos avalia a qualidade do árbitro com base em estatísticas de jogos pretéritos confrontadas com as estatísticas das atuações do próprio time envolvido. No caso do jogo de quarta-feira, Roman assinalou poucos pênaltis em seus jogos. Isso não é suficiente para instruir seus atletas que qualquer cai-cai na área dificilmente geraria a penalidade máxima?
É mais fácil, claro, apelar para a teoria da conspiração. E eu estou longe de sair por aí gritando que não há favorecimento. Obviamente, quem tem o poderio econômico exerce mais pressão e a consequência é, de certa forma, ter um olhar mais benéfico para si – ou impor medo caso seja prejudicado. O problema é que ninguém ataca a raiz da questão: não é preciso mais blindagem à comissão de arbitragem? Deixá-la imune a tanta pressão?
Essa seria a alternativa mais lógica. Poderiam lutar por uma arbitragem profissional, organizada, independente, desgarrada da CBF, que pouco ou nada se interessa com o futebol praticado no Brasil. Isso parece pedir demais quando os próprios clubes não são financeiramente viáveis, incapazes de organizar uma liga própria rentável independente da entidade máxima, curvando-se à necessidade da real dona do calendário esportivo nacional, a televisão. Se não conseguem nem para eles, fariam pela arbitragem?
Dessa forma, os clubes encontraram outra saída. A choradeira, manifesta em todos os momentos de todas as formas. Antes, por precaução, pois o juiz já “favoreceu X antes e vai favorecer contra mim”, “prejudicou X antes e agora pode compensar contra mim”, “já me prejudica desde sempre” e “me favoreceu antes e agora quer contrabalançar”. Durante as partidas, técnico pressionam à beira do gramado à exaustão e qualquer medida do “homem de preto” é perseguição pessoal. Após os jogos, querem a punição preventiva, através do “não quero mais tal juiz em jogos do meu time”.
De certo modo, isso tende a equilibrar mais as coisas, com base na teoria do “reductio ad absurdum”, todo mundo reclama tanto, que a pressão vinda de todos os lados se anula. Porém, não apaga aquela lógica inicial: quem tem maior poderio econômico tende a acabar levando vantagem nos momentos importantes. E vem a enxurrada de reclamações, quando diretores escondem suas falhas na organização do clube “mostrando serviço” nas comissões de arbitragem e nos programas de TV.
Nesse caso, vem a crítica à mídia. Primeiramente, não é necessário saber a opinião de todos os comentaristas se foi ou não pênalti, isso não precisa virar pauta específica, com replays em câmera lenta por todas as câmeras, daqui a pouco até com imagens de YouTube de gente que filmou do estádio com celular. Até acho que um replay mais elaborado sobre um lance objetivo é válido (impedimento, bola passou ou não da linha), com vistas a instruir o espectador. Pênalti é sempre muito subjetivo e, por mais que a audiência mereça e deva receber todas as informações, a mera opinião se foi ou não infração não merece tanto destaque.
Porém, o que vemos não é apenas o contrário disso, como se abusa desse espaço, inclusive abrindo-o para atletas e dirigentes reclamarem, bem como, vez ou outra, até para o juiz se defender. Ou seja, a discussão de boteco acaba dando o tom das mesas-redondas “profissionais”, até embutindo conceitos sérios (oficialização do discurso, ouvir a outra parte) a uma conversa deveras inútil e redundante. A função educativa e elucidativa da imprensa se perde. No final das contas, o torcedor acaba comprando a ideia de que o dirigente deve mais é reclamar mesmo e, quando faz isso, cumpre seu papel com eficácia.
Depois, quando esse mesmo cartola convence seu torcedor de que vai defendê-lo da mesma forma na câmara dos vereadores ou em outra instância política, a mesma imprensa reclama do uso eleitoreiro do cargo de dirigente do clube, sem nunca se responsabilizar por ter dado o palco para o artista veicular seu discurso ao seu público.