Terça-feira, 27/Maio/2008...20:55

Guga e os “heróis” brasileiros

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Eu não agüento mais ver o mundo todo falando sobre o fim de carreira do Guga – como se ela estivesse acabando agora. Já acabou, faz tempo, isso se um dia o tenista teve, de fato, uma carreira de verdade, não apenas um errante pelo circuito mundial. Sua qualidade é indiscutível, especialmente no saibro. A questão, talvez, apenas, seja essa necessidade de heroicizá-lo pelos resultados obtidos.

Guga não é um coitado. Vem de família de boa formação, nunca passou fome, não sobreviveu a uma infância miserável, muito menos foi um caso inacreditável de um esportista a conseguir resultados miraculosamente. Por mais que a mídia desportiva brasileira não dê a menor importância a qualquer coisa senão futebol – até mostra outras coisas, mas sem destaque -, para escolher o tênis, ele teve suporte financeiro e emocional para construir sua carreira. Se não conseguiu fazê-lo, é outro problema.

Vem dessa constatação o maior demérito de Guga. Tinha muito talento, isso não se discute. Foi, sem dúvida, o maior tenista brasileiro de todos os tempos – homem, claro, não nos esqueçamos de Maria Esther Bueno -, não há comparações com Jaimes Oncins, Luiz Mattars, Ricardos Mellos da vida, como todos os outros foram, são e parecem condenados a sempre ser, graças ao nível desgraçado da organização do esporte brasileiro. Talvez o problema seja que Guga tivesse potencial para ter sido muito mais, e nunca foi – e o futuro do tênis tupiniquim já chora por isso.

Posso ser leviano, afinal, não tenho como avaliar seu grau de contusão. Mas a impressão que sempre tive é a de o tenista nunca ter levado sua carreira devidamente a sério. Mesmo quando jogava, parecia necessitar de algum desafio, de se divertir na quadra, para conseguir levar a partida a sério e ganhá-la. Não à toa, às vezes corria riscos bobos, perdia partidas fáceis. Quando foi número um do mundo, poderia ter feito o que quisesse, mas ficou restrito a um ótimo atleta do saibro. E nada mais. Não é pouco, mas não poderia ser mais? A função do esportista não é desafiar o seu limite?

Guga acabou sendo um manezinho da ilha a suprir, – sem ser sua intenção, mas jamais contra a sua vontade -, a ausência pós-morte de Senna no imaginário do brasileiro de sucesso que passa a perna nos gringos. Na nossa mentalidade de vira-lata, ver um compatriota se impondo perante os outros não serve de exemplo, mas de desforra. O tenista se encaixou nisso. Poderia ser uma marca no esporte tupiniquim, mas preferiu não perder suas ondas a potencializar sua carreira. Andre Agassi quase fez isso, porém, recuperou-se a tempo de ser um dos maiores de sua geração.

No fundo, não sei quão ruim é isso. O tenista atraiu a simpatia por jamais ter deixado de ser um macunaíma do tênis – alguém a divertir os gringos com seu cabelo esquisito, seu jeito bobalhão, completamente avesso à competição voraz do esporte. Diferentemente de outros heróis brasileiros que trabalharam sua imagem para transformá-la num ícone, como Pelé, até num mártir, como Senna, ou cujo mito se deu pelo fim trágico, como Mané Garrincha. Guga, agora, vai brincar de mochileiro pela Europa. É estranho, mas, talvez, esse seja seu maior mérito. Infelizmente, ninguém parece valorizar isso.

1 Comentário

  • Sim, você foi leviano.
    Ele foi um excelente tenista enquanto o seu físico permitiu, e só começou a “desandar” quando a lesão começou a dar sinal.
    Para um atleta de um esporte individual de alto impacto, isto faz uma diferença enorme.
    E o fato de ele não ter trabalhado sua imagem para se tornar um herói é um grande mérito, de uma pessoa que em nenhum momento achou que ser um grande tenista deveria o fazer diferente de nós, “meros mortais”…


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