Nas minhas idas esporádicas ao cinema, ontem fui ver Linha de Passe. Infelizmente, não era o agradável debate de segundas à noite na ESPN Brasil, mas o novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas, já devidamente agraciado pela crítica depois de receber ovações em Cannes – ainda precisamos da “enganar os gringos” para nos sentirmos valorizados.
O filme até é bom. Confesso que fui esperando pelo pior – gosto de Terra Estrangeira, embora os outros filmes dessa galerinha sejam meio bobos -, e contratempos no cinema escolhido aumentaram o tradicional mau humor. Mas o modo com as histórias de cada personagem são contadas e se complementam é gostoso de acompanhar, apesar da sensação meio incômoda causada pela vidração que os riquinhos cineastas brasileiros têm de mostrar a pobreza tupiniquim ao mundo – não por “mea culpa”, e sim por oportunismo, como se fosse nosso diferencial em relação ao cinema estrangeiro, apesar de boa parte do planeta ser miserável.
Para os fãs de futebol, também é interessante ver como se conseguiu com certo sucesso filmar as cenas da prática do esporte com aparente verossimilhança. Aliás, essa urgência de realidade é uma das maiores virtudes de Linha de Passe. É retratada muito bem (creio eu, ou apenas fui enganado direitinho) a vida de uma família de classe baixa, tendo a mãe como núcleo familiar, os irmãos tentando a própria sorte, cada um ao seu modo relativo à idade e às responsabilidades. Tudo parece muito vivo, verdadeiro. Nem parecem atores – e o fato de não ter nenhum global chato é crucial para esse efeito.
Mas cinema não é só isso. É nesse ponto que os filmes brasileiros sempre se perdem. Essa urgência de realidade é o calcanhar de aquiles da elitista filmografia nacional. Ao terminar Linha de Passe, com as vidas de cada um ainda a se definir, talvez faltasse um elemento mais lúdico à obra. De tantas emoções cafonas que tentam ser transmitidas, a sensação de final (feliz ou não) é deixada de lado. No contexto do roteiro, até faz sentido – a luta no cotidiano de periferia nunca termina. Mas um sentido besta, pois o filme não é o cotidiano. É uma ficção. Se o final terminasse qualquer das histórias, o enredo do filme é forte o suficiente para não lhe conferir a idéia de definitividade.
Em suma, é como se, depois de ver Fernando Calazans lamentando do futebol horroroso do Campeonato Brasileiro, Juca Kfouri tentando fazer piada sem graça e José Trajano xingando o mundo inteiro por puxar o saco de qualquer um que ele não julgue merecedor, não viesse um PVC mais sóbrio para dar o toque final à discussão – ele não exaure quem vai ser o campeão brasileiro, pois a competição continuará; apenas encerra o debate nas circunstâncias daquele dia de forma sensata, permite que se chame o intervalo e, na volta, um novo tópico se inicie.
PS: Não poderia deixar de reclamar do Kinoplex Itaim na estréia dessa seção “Colírio de Sangue”. Foi a primeira e a última vez que freqüento uma sala cujo ingresso custa 20 reais e tem apenas 3 guichês para vendê-lo, além de um outro destinado ao atendimento preferencial. Isso sem contar a desgraça de ouvir “cantando” umazinha qualquer se achando nascida em Nova Orleans, enquanto esperava na lentidão da fila ao lado de um monte de boyzinho à la pseudo-intelectual de Espaço Unibanco. E o estacionamento custava absurdos 9 reais. Ou seja, um casal gastaria no mínimo 50 reais para ver um mísero filme metido a besta com monte de feio pobretão na tela que nem termina direito!