Como ser corinthiano é uma doença e ser formado em jornalismo é uma loucura, perdi algumas preciosas horas e outros valiosos reais lendo “Salvem o Corinthians”, de Carla Dualib. Sentia-me na obrigação de ver o seu ponto-de-vista sobre o malfadado reinado de seu avô no Parque São Jorge.
Vou tentar explicar como o livro funciona. Carla Dualib é uma profissional renomada e respeitada do mercado. Mas, antes de tudo, corinthiana graças ao “vovô”, seu Alberto Dualib, um comerciante-feito-empresário de enriquecimento invejado que participou de todas as administrações do Corinthians nos últimos trinta anos (exceto a de 1981 e 1985, coincidentemente, a da Democracia Corinthiana, mas não veio ao caso ressaltar no texto ser esta a única da qual o corinthiano tem, de fato, orgulho).
Carla, verificando o péssimo estado com que o Corinthians tratava o seu marketing – pois “vovô”, bonzinho, era obrigado a ajudar a todos os pilantras obsoletos do Conselho (não conveio explicar se isso era para conseguir apoio político à sua então nascente ditadura) – resolve, com sua grande experiência de mercado, assumir tal seção e, em suas palavras, revoluciona o departamento no alvinegro.
Obviamente, o choque de gestão causa problemas internos, mas tem sua conduta respaldada pela poderosa Hicks, Muse, Tate & Furst, parceira do Corinthians, cujo maior projeto no Brasil, a PSN, naufragou absurdamente graças ao azar de péssimos mares negociais a serem navegados no caótico oceano mercadológico brasileiro. Claro, não vale dizer que o marketing tão bom do Corinthians foi ineficaz para, mesmo após duas parcerias milionárias seguidas (Banco Excel e a HMTF) tirar o time de dívidas absurdas, fazendo com que “vovô”, da “mais vitoriosa administração de todos os tempos”, se desesperasse em busca de uma nova parceria qualquer para tirar o clube do vermelho.
Desespero tal que não permitiu a “vovô” ouvir os gritos da filha, sempre contrária à parceria, para não se meter com gente suja da máfia russa. Gente do tipo que oferece passe de jogador em ascensão para calar a neta heroína do marketing, cujos escrúpulos a fizeram recusar tal proposta indecente. E passar a ser combatida pelo encantador demônio Kia Joorabichian – e seu pupilo brasileiro, Andres Sanches – e não ver mais seu trabalho remunerado.
Mas o presidente-rainha-da-Inglaterra havia empenhado a palavra – aquela que, como aprendera nos tempos de comerciante, deveria ser honrada – com pilantras de toda a espécie, de dentro do clube, confiava em seus assessores e lhes assinava quaisquer documentos, ou de qualquer máfia externa, russa ou “uruguaia”. “Vovô” não precisava se meter em negociatas, tinha dinheiro de sobra para uma vida confortável. O problema eram eles. Os bandidos. Traidores.
A história do clube termina (?) como todos nós sabemos – e lamentamos (e continuamos a lamentar). Carla, por outro lado, só sofreu. Perdeu o marido, o seu nome no mercado, sua perspectiva profissional. Tudo isso porque, coitada, meteu-se a ajudar o clube – não devido a ter trabalhado com “vovô” e, junto dele e dos colegas por ele arrumados, ter se queimado. Mas o amor pelo Corinthians, esse continua, apesar dos crápulas que dele tomam conta.
Mas agora parte para a desforra. Publica seu livro para juntar alguns merréis (como os meus) enquanto espera sua próspera ação contra o clube do coração para fazer um bom pé-de-meia para tentar viver feliz para sempre – isso, claro, se vexames como o da final da Copa do Brasil não lhe tirarem o sono.