Terça-feira, 11/Novembro/2008...18:07

Pela redemocratização da pista

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Há algum tempo, noto que um fenômeno não muito divertido começa a se tornar corriqueiro nos shows de rock paulistanos: as pistas VIP. Nada que me soe mais contrário a tudo que uma apresentação ao vivo de uma banda representa.

Por mais besta que pareça, sempre apreciei aqueles imbecis dormindo nas filas dos shows para pegar lugar. Quando eu ainda era apenas um jovem ranzinza, normalmente, sempre começava a buscar um lugar no burburinho minutos antes de começar o show e a jornada sempre terminava de modo satisfatório, quando não a primeira fila mesmo – e ter conseguido isso no show do Halford no Rock in Rio III foi o ápice. Por isso, entendia quem não media esforços para consegui-lo, nem que fosse por ao menos alguns minutos depois de horas de espera.

Mas o legal era exatamente isso: a pista, por ser um ingresso dos mais baratos, acabava facilitando o acesso de qualquer um ao tête-à-tête com o artista, poder olhar no olho do cara durante o show, cantar junto como se ele te acompanhasse. E, como exigia um esforço danado, você tinha que curtir muito para chegar lá. E, quando se chegava, você vibrava mais, o show ganhava outro contorno. Quantas apresentações mornas não ficaram gravadas na memória simplesmente porque você viu um show como ninguém mais o fez?

Mas isso está acabando. Hoje em dia, inventaram a pista VIP, um jeito de se extorquir ainda mais dinheiro dos fãs. Não é nem a questão de o mais endinheirado não merecer – pode ser até mais fã por gastar mais para vê-la.  Mas o efeito final é o de como se fosse criado um camarote de frente ao palco, a perda do contato com o resto de todo o público, a ausência da luta pelo lugar, do esforço físico, por mais que tenha custado, perde um pouco do tesão de se estar ali.

Para o artista, isso deve fazer muita diferença, principalmente quando o setor não está lotado e fica um vão até a outra parte do público, também empolgada (às vezes, até mais), porém talvez não tanto quanto se estivesse em vias de encostar no ídolo. Não deve ser legal olhar a sua primeira fila e ver pessoas não tão extasiadas como outrora.

Não sou contrário ao promotor encontrar métodos para ganhar mais dinheiro com os fãs – e recompensá-los de forma satisfatória por isso. Até acho que o lugar privilegiado possa existir, mas sem impossibilitar o acesso do resto do público a esse contato (alas laterais, primazia no acesso ao local, sei lá). A pista é uma instituição do show de rock e sobrepor a lógica do lucro ao espírito de se atingir um nível elevado de êxtase ao presenciar sua música favorita diminui a grandiosidade da experiência.

Na minha humilde opinião, não faz o menor sentido existir show de rock com limitações pré-estabelecidas. O que o torna uma experiência fantástica é a espontaneidade e a imprevisibilidade. Quando tudo fica pensado e certinho demais, é um porre.

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