Quarta-feira, 24/Setembro/2008

Salvem a Carla Dualib!

Como ser corinthiano é uma doença e ser formado em jornalismo é uma loucura, perdi algumas preciosas horas e outros valiosos reais lendo “Salvem o Corinthians”, de Carla Dualib. Sentia-me na obrigação de ver o seu ponto-de-vista sobre o malfadado reinado de seu avô no Parque São Jorge.

Vou tentar explicar como o livro funciona. Carla Dualib é uma profissional renomada e respeitada do mercado. Mas, antes de tudo, corinthiana graças ao “vovô”, seu Alberto Dualib, um comerciante-feito-empresário de enriquecimento invejado que participou de todas as administrações do Corinthians nos últimos trinta anos (exceto a de 1981 e 1985, coincidentemente, a da Democracia Corinthiana, mas não veio ao caso ressaltar no texto ser esta a única da qual o corinthiano tem, de fato, orgulho).

Carla, verificando o péssimo estado com que o Corinthians tratava o seu marketing – pois “vovô”, bonzinho, era obrigado a ajudar a todos os pilantras obsoletos do Conselho (não conveio explicar se isso era para conseguir apoio político à sua então nascente ditadura) – resolve, com sua grande experiência de mercado, assumir tal seção e, em suas palavras, revoluciona o departamento no alvinegro.

Obviamente, o choque de gestão causa problemas internos, mas tem sua conduta respaldada pela poderosa Hicks, Muse, Tate & Furst, parceira do Corinthians, cujo maior projeto no Brasil, a PSN, naufragou absurdamente graças ao azar de péssimos mares negociais a serem navegados no caótico oceano mercadológico brasileiro. Claro, não vale dizer que o marketing tão bom do Corinthians foi ineficaz para, mesmo após duas parcerias milionárias seguidas (Banco Excel e a HMTF) tirar o time de dívidas absurdas, fazendo com que “vovô”, da “mais vitoriosa administração de todos os tempos”, se desesperasse em busca de uma nova parceria qualquer para tirar o clube do vermelho.

Desespero tal que não permitiu a “vovô” ouvir os gritos da filha, sempre contrária à parceria, para não se meter com gente suja da máfia russa. Gente do tipo que oferece passe de jogador em ascensão para calar a neta heroína do marketing, cujos escrúpulos a fizeram recusar tal proposta indecente. E passar a ser combatida pelo encantador demônio Kia Joorabichian – e seu pupilo brasileiro, Andres Sanches – e não ver mais seu trabalho remunerado.

Mas o presidente-rainha-da-Inglaterra havia empenhado a palavra – aquela que, como aprendera nos tempos de comerciante, deveria ser honrada – com pilantras de toda a espécie, de dentro do clube, confiava em seus assessores e lhes assinava quaisquer documentos, ou de qualquer máfia externa, russa ou “uruguaia”. “Vovô” não precisava se meter em negociatas, tinha dinheiro de sobra para uma vida confortável. O problema eram eles. Os bandidos. Traidores.

A história do clube termina (?) como todos nós sabemos – e lamentamos (e continuamos a lamentar). Carla, por outro lado, só sofreu. Perdeu o marido, o seu nome no mercado, sua perspectiva profissional. Tudo isso porque, coitada, meteu-se a ajudar o clube – não devido a ter trabalhado com “vovô” e, junto dele e dos colegas por ele arrumados, ter se queimado. Mas o amor pelo Corinthians, esse continua, apesar dos crápulas que dele tomam conta.

Mas agora parte para a desforra. Publica seu livro para juntar alguns merréis (como os meus) enquanto espera sua próspera ação contra o clube do coração para fazer um bom pé-de-meia para tentar viver feliz para sempre – isso, claro, se vexames como o da final da Copa do Brasil não lhe tirarem o sono.

Segunda-feira, 22/Setembro/2008

Faltou o PVC…

Nas minhas idas esporádicas ao cinema, ontem fui ver Linha de Passe. Infelizmente, não era o agradável debate de segundas à noite na ESPN Brasil, mas o novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas, já devidamente agraciado pela crítica depois de receber ovações em Cannes – ainda precisamos da “enganar os gringos” para nos sentirmos valorizados.

O filme até é bom. Confesso que fui esperando pelo pior – gosto de Terra Estrangeira, embora os outros filmes dessa galerinha sejam meio bobos -, e contratempos no cinema escolhido aumentaram o tradicional mau humor. Mas o modo com as histórias de cada personagem são contadas e se complementam é gostoso de acompanhar, apesar da sensação meio incômoda causada pela vidração que os riquinhos cineastas brasileiros têm de mostrar a pobreza tupiniquim ao mundo – não por “mea culpa”, e sim por oportunismo, como se fosse nosso diferencial em relação ao cinema estrangeiro, apesar de boa parte do planeta ser miserável.

Para os fãs de futebol, também é interessante ver como se conseguiu com certo sucesso filmar as cenas da prática do esporte com aparente verossimilhança. Aliás, essa urgência de realidade é uma das maiores virtudes de Linha de Passe. É retratada muito bem (creio eu, ou apenas fui enganado direitinho) a vida de uma família de classe baixa, tendo a mãe como núcleo familiar, os irmãos tentando a própria sorte, cada um ao seu modo relativo à idade e às responsabilidades. Tudo parece muito vivo, verdadeiro. Nem parecem atores – e o fato de não ter nenhum global chato é crucial para esse efeito.

Mas cinema não é só isso. É nesse ponto que os filmes brasileiros sempre se perdem. Essa urgência de realidade é o calcanhar de aquiles da elitista filmografia nacional. Ao terminar Linha de Passe, com as vidas de cada um ainda a se definir, talvez faltasse um elemento mais lúdico à obra. De tantas emoções cafonas que tentam ser transmitidas, a sensação de final (feliz ou não) é deixada de lado. No contexto do roteiro, até faz sentido – a luta no cotidiano de periferia nunca termina. Mas um sentido besta, pois o filme não é o cotidiano. É uma ficção. Se o final terminasse qualquer das histórias, o enredo do filme é forte o suficiente para não lhe conferir a idéia de definitividade.

Em suma, é como se, depois de ver Fernando Calazans lamentando do futebol horroroso do Campeonato Brasileiro, Juca Kfouri tentando fazer piada sem graça e José Trajano xingando o mundo inteiro por puxar o saco de qualquer um que ele não julgue merecedor, não viesse um PVC mais sóbrio para dar o toque final à discussão – ele não exaure quem vai ser o campeão brasileiro, pois a competição continuará; apenas encerra o debate nas circunstâncias daquele dia de forma sensata, permite que se chame o intervalo e, na volta, um novo tópico se inicie.

PS: Não poderia deixar de reclamar do Kinoplex Itaim na estréia dessa seção “Colírio de Sangue”. Foi a primeira e a última vez que freqüento uma sala cujo ingresso custa 20 reais e tem apenas 3 guichês para vendê-lo, além de um outro destinado ao atendimento preferencial. Isso sem contar a desgraça de ouvir “cantando” umazinha qualquer se achando nascida em Nova Orleans, enquanto esperava na lentidão da fila ao lado de um monte de boyzinho à la pseudo-intelectual de Espaço Unibanco. E o estacionamento custava absurdos 9 reais. Ou seja, um casal gastaria no mínimo 50 reais para ver um mísero filme metido a besta com monte de feio pobretão na tela que nem termina direito!

Sexta-Feira, 12/Setembro/2008

Haja blogs…

Na verdade, eu entrei aqui só porque notei que o link para o blog do PVC ainda estava desatualizado. O anterior, no Lancenet, não existe mais e, agora, ele faz parte daquela baderna esdrúxula do site novo da ESPN, algo que eles insistem em chamar de “revolucionário”. Encheram de blogs inúteis.

No fundo, odeio esses blogs de jornalistas. Se você tem uma notícia, apure-a e publique na porra do website do seu veículo, se quer emergência. Se você é autônomo, beleza, está perdoado, é seu jeito de se expressar. Mas profissionais consagrados de mídias renomadas acabam inflando o próprio ego para soltar os “furos com marca d’água própria”. Desnecessário, no mínimo, receber no feeder algo como “leia no Blog do Josias que o STJ vai invalidar a investigação do Protegenes”. Não seria melhor acompanhar isso no Folha On Line?

Assim, resta a dúvida: Qual a função de um blog de jornalista? É para mostrar que ele é fodão e segura a revista dele nas costas? Gosto quando um repórter mostra o outro lado da notícia. Por exemplo, se aborda assuntos, não necessariamente de bastidores, sem relevância prática para o fato reportado, mas interessante para saber como aquilo rolou.

Por exemplo, se eu esbarrar com Mano Menezes num aeroporto, posso fazer uma entrevista e conseguir um furo. Legal, essa é a minha matéria, vai para o site da minha empresa, caso possua algum conteúdo relevante. Mas posso contar como o encontrei, a forma pela qual o reconheci e a abordagem ao me aproximar dele num blog. Para mim, coisas assim deveriam fazer parte dele.

O site novo da ESPN não é muito assim. Ok, é legal abrir mais espaço para opinião no site – já havia as colunas antes, e eu gostava de algumas delas, não via a necessidade dos blogs -, mas há muita gente que eu mal conheço e cujas idéias não significam absolutamente nada. E muitos posts curtos de coisas irrelevantes. Mais conteúdo do website a ser ignorado.

Na verdade, o que o site da ESPN acaba mostrando é que, cada vez mais, o mundo virtual fica chato e sem novidades. Então, acabamos passando o tempo lendo a opinião dos outros, por nos faltar algo melhor a fazer ou a procurar na internet.

Deveria começar a ler um livro, isso sim. Ou parar de ficar no computador e estudar decentemente.

Quarta-feira, 10/Setembro/2008

O Metallica novo é legal. E isso já é o suficiente.

St. Anger era um prenúncio – escroto, é verdade -, tocar o Master of Puppets na íntegra três anos atrás, a ausência de faixas dos discos mais novos nas tours, chamar Rick Rubin para produzir. Tudo entregava que o Metallica ia buscar a aprovação da ala mais “metal” de seus fãs com o novo trabalho. E Death Magnetic se prestou unicamente a isso. Com sucesso. Mas sem lá muita inspiração.

É plenamente compreensível que o Metallica não tenha o fogo do passado. De um monte de bêbado cheirador em São Francisco, hoje são superstars milionários de Lalaland. Jamais alguém que saía de chinelos carregando um pacote de roupas de uma loja de grife vai conseguir escrever “Phantom Lord” de novo. E, sabiamente, a banda não tentou fazer isso.

Fez o que estava ao seu alcance. Pegou todas as suas influências, jogou-as num liquidificador e, disso, tentou compor músicas mais pesadas. Conseguiu. O problema é que nenhuma soa como um clássico. Apesar de todas manterem um nível de qualidade meio raro nos últimos trabalhos da banda, há pouca coisa memorável – apenas “That was just your Life”, “The Day that Never Comes” e “All Nightmare Long” podem passar no teste do tempo. Não trocava nenhuma por “Bleeding Me” ou “The House Jack Built”, do tão criticado Load.

O mais legal de Death Magnetic é o clima de diversão. Se St. Anger parecia um martírio de idéias – algumas muito boas, como “Frantic” e “Sweet Amber”, mas tudo cercado de um sofrimento absurdo, como bem documentado em Some Kind of Monster -, o novo álbum é legal. Você percebe a banda com tesão pelo que fez, deixando Kirk solar à vontade, trocando bases o tempo todo, com vocais gritados, letras sem lá muita pretensão. Para a tour atual, até é possível encaixar os clássicos do Metallica com faixas novas num setlist sem soar forçado. Esse é o maior elogio possível a um trabalho de um novo dinossauro.

No entanto, falta inspiração. Compreensível. O Metallica não é o Testament, que precisa lançar um disco fantástico para justificar sua existência (e The Formation of Damnation é isso e muito mais!). A trupe de Lars e James apenas quer continuar na estrada, fazendo seus milhões por show com um motivo legal para fazer isso um pouco diferente de modo a não perder a graça. Conseguiram com Death Magnetic. E basta.

Segunda-feira, 8/Setembro/2008

A vez de Massa

Depois de ontem, não tem mais como negar. Se Felipe Massa não for campeão da F1 em 2008, desista.

No fundo, grande coisa. Massa não é um grande piloto. É bom, e olha lá. Está entre os melhores de sua geração, assim como Raikkonen, e nenhum dos dois são meio Alonso, disparado o único memorável entre os de idade parecida. Como o finlandês não fez uma grande temporada e o espanhol sofre num carro de segunda, caiu nos braços do brasileiro a chance de levar o título.

Disputa a taça com Hamilton, um novato que, em sua segunda temporada, já mostrou ser mais talentoso. Mas ainda paga o preço da inexperiência e, no apogeu de sua maturidade, Massa pode, finalmente, dar um título à Rede Globo. Vai marcar seu nome na história da competição, mas, sejamos francos, não sei se merece sequer isso.

Claro, isso se Massa não sofrer do mal que atemoriza brasileiros na hora de decidir. Ano passado, o piloto também estragou suas chances e, ao fazer besteiras nas últimas corridas, participou do GP de Interlagos com o único objetivo de ajudar seu parceiro a levantar o caneco, algo que fez com uma marra impressionante, como se não fosse exclusivamente sua a culpa não estar na disputa na derradeira prova.

Agora, veremos. Brasileiro, como ficou provado na Olimpíada de Pequim, tende a amarelar na “hora h”. É a nossa sina: não temos a frieza e seriedade necessárias para, no momento chave, rendermos em nosso total potencial. Falta preparo psicológico. Se somos muito superiores ao adversário, conseguimos o resultado, mesmo com uma performance aquém do habitual. Agora, se a disputa é equilibrada e exige concentração total, sem chances.

É esperar para ver.

Segunda-feira, 1/Setembro/2008

O mais amargo aniversário

Há 98 anos, era fundado o Sport Club Corinthians Paulista.

Em toda a minha infância, jamais imaginei que celebraria um aniversário do clube em tamanha apatia.

A campanha na segundona, intitulada de “Globetrotters da série B”, não é nada mais que a obrigação. Uma vitória soa como um alívio do passo dado em direção ao retorno a “elite”. Não interessa quantas pessoas estão no Pacaembu, não há sorriso, não há alegria em cada gol marcado. Apenas contam-se os dias para o final de uma vergonha histórica, de uma mácula a sempre nos assombrar, cuja lição não parece ter sido muito bem assimilada.

Esse sentimento seria bem menos amargo caso a Copa do Brasil não tivesse sido perdida de modo tão bisonho. Ou, claro, se não houvesse acontecido o rebaixamento.

Mas, aconteceu. Bola pra frente. Feliz aniversário, Corinthians. Que anos melhores venham.

Sexta-Feira, 29/Agosto/2008

Update de peso!

Não. Eu não esqueci desse blog.
Vou tentar reativá-lo aos poucos.
Até vou falar um pouco mais dos Jogos Olímpicos, da Seleção Brasileira, de Fórmula 1, de música, de filmes – embora faça tempo que eu não vá ao cinema. Depois. Agora é hora de pegar pesado.

Paradoxalmente, pegar pesado falando sobre o que eu tenho feito de mais divertido.

Quando voltei da minha viagem à Europa no mês de junho (falarei dela também no futuro), trouxe comigo várias revistas de metal lá compradas (francesas e inglesas). A maior parte delas cobre bandas e eventos do meu dia-a-dia, mas a britânica Terrorizer exibia coisas que eu jamais ouvira falar. Então, quando arranjo tempo, eu tenho lido uma matéria e corrido atrás do disco nos torrents da vida para saber como que a dita-cuja soa.

Algumas bandas me chamaram a atenção. A primeira foi a Asva. Falaram que se tratava de um prog-metal revolucionário, mas, até agora, eu não consegui chegar na primeira música do álbum What You Don’t Know is Frontier – há uma introdução de uns 20 minutos, depois uma espécie de faixa de transição de 15 minutos. Não sei se o disco acabou sem começar e eu nem vi as demais passarem (são só mais duas), mas um dia desses eu crio coragem para tentar dar-lhe mais uma chance.

A outra banda é o Nachtmystium. Essa é uma das “bandas cansadas de black metal”, ou seja, “éramos toscos, mas aprendemos a tocar e vimos que black metal é chato demais”. A obsessão por Pink Floyd já fica latente no título do disco: The Black Meddle. A primeira faixa se chama “One of these Nights” e há referências semi-homenageadoras à trupe de Gilmour e/ou Waters. O álbum é divertido, até recomendo para quem gosta de metal mais extremo.

Sem contar no disco novo do Evergrey. Ainda não quero dar um “parecer terminativo”, mas soa para mim como o melhor trabalho dos suecos. Retoma a linha mais “técnica” usual da banda, sem perder a vontade de ser cativante do Monday Morning Apocalypse nem os climas soturnos semi-deprês de sempre. Vale a ouvida, principalmente em “Soaked”, para mim, e sem medo de aqui ser categórico e com as óbvias chances de mudar de opinião depois, a melhor música deles em todos os tempos.

Obviamente, aguardando vazar o disco novo do Metallica. Resumindo: gostei bastante da “The Day that Never Comes”, aprecio com reservas a “My Apocalypse” e achei a “Cyanide” bem chatinha. Só não me assusto mais com a quantidade de hype em torno de Death Magnetic. Houve o mesmo com St. Anger e nós sofremos ouvindo como acabou – sem contar que odeio quando falam mal do Black Album e do Load para elogiar as músicas novas. São dois discos fantásticos.

Depois quero falar da minha teoria sobre a amarelância brasileira nos Jogos Olímpicos e a grande descoberta do seu Nuzman de que precisamos de psicólogo. Ah vá…

Sexta-Feira, 13/Junho/2008

O grande degrau da glória

Esporte é uma coisa divertida – ou trágica – por causa disso: entre você ser um bom atleta e ser um campeão parece existir um abismo colossal. Lembro-me de uma partida do Guga, numa das trajetórias vitoriosas em Roland Garros, quando teve de defender alguns match points contra um adversário sem tradição, vindo do qualifying, se não me engano. Numa entrevista, esse cara confessou ter tremido ao rebater as bolas da partida.

Na verdade, o momento decisivo é a hora em que todos os holofotes estão focados no atleta. Por menor que seja a pressão sofrida ao longo da campanha, é quando é necessário ter sangue frio e aquele “algo mais” capaz de manter o ótimo desempenho e, quem sabe, até superar suas capacidades. Chegar à glória é difícil.

Faltou isso ao Corinthians nesta quarta-feira. Formado por muitos jogadores medianos ou promissores, o Timão amarelou. Jogadores como André Santos, Chicão, Eduardo Ramos, Felipe, Carlos Alberto, Alessandro, Acosta, todos simplesmente tiveram performance muito abaixo do seu usual – e nem houve marcação cerrada ou pressão absurda do Sport (por muitos momentos, no primeiro tempo, a torcida alvinegra fazia mais barulho que os donos da casa). Daí para que uma promessa como Dentinho sinta a responsabilidade é um passo pequeno. Exceto por Herrera e, talvez, Fabinho e William, a tentar despertar o espírito dos outros jogadores, o time sucumbiu à sua própria limitação.

Limitação que nós, corinthianos, custamos a aceitar, por nos lembrarmos de performances fabulosas como no primeiro tempo da final, ou a vitória acachapante contra o Goiás. Talvez seja um elogio ao próprio ego ferido, mas quem sabe não foi a torcida quem fez a diferença? Seria diferente caso o Corinthians viesse com um 2 a 0 contra para reverter no Morumbi lotado sob o apoio insandencido de quase 70 mil corinthianos?

Fato é que falta uma cara de campeão a esse Corinthians. É um elenco de nível muito superior ao da Série B. Com Douglas, Elias e, se voltar à forma de 2006, Dênis, teoricamente capaz de fazer bom papel na primeira divisão. Mas dificilmente levaria a taça. Falta alguém vencedor nesse grupo de jogadores, como eram Ronaldo e Neto no elenco meia-boca de 1990. Aquele atleta cuja confiança se reflita nos demais, que goste de atrair para si os holofotes e deixe tranqüilos outros ainda não acostumados a esse tipo de jogo para não sentir tanto. Seria a torcida capaz de suprir essa ausência? Talvez.

Certamente, não foi capaz nenhum dos abnegados que levou um elenco mediano a uma posição apenas sonhada por um bando de loucos – corinthianos cuja crença cega no poder de superação de seu time seja invejada por quase todas as outras torcidas, agora festejando aliviadas pois, dessa vez, não testemunharam uma festa imensa, redentora, logo após um momento de humilhação suprema. Infelizmente, uma celebração frustrada por uma derrota ridícula, do modo como mais desprezamos – sem gana, sem força, sem raça.

O sonho dourado acabou. Que venha a Série B e o resto do pesadelo.

Terça-feira, 27/Maio/2008

Guga e os “heróis” brasileiros

Eu não agüento mais ver o mundo todo falando sobre o fim de carreira do Guga – como se ela estivesse acabando agora. Já acabou, faz tempo, isso se um dia o tenista teve, de fato, uma carreira de verdade, não apenas um errante pelo circuito mundial. Sua qualidade é indiscutível, especialmente no saibro. A questão, talvez, apenas, seja essa necessidade de heroicizá-lo pelos resultados obtidos.

Guga não é um coitado. Vem de família de boa formação, nunca passou fome, não sobreviveu a uma infância miserável, muito menos foi um caso inacreditável de um esportista a conseguir resultados miraculosamente. Por mais que a mídia desportiva brasileira não dê a menor importância a qualquer coisa senão futebol – até mostra outras coisas, mas sem destaque -, para escolher o tênis, ele teve suporte financeiro e emocional para construir sua carreira. Se não conseguiu fazê-lo, é outro problema.

Vem dessa constatação o maior demérito de Guga. Tinha muito talento, isso não se discute. Foi, sem dúvida, o maior tenista brasileiro de todos os tempos – homem, claro, não nos esqueçamos de Maria Esther Bueno -, não há comparações com Jaimes Oncins, Luiz Mattars, Ricardos Mellos da vida, como todos os outros foram, são e parecem condenados a sempre ser, graças ao nível desgraçado da organização do esporte brasileiro. Talvez o problema seja que Guga tivesse potencial para ter sido muito mais, e nunca foi – e o futuro do tênis tupiniquim já chora por isso.

Posso ser leviano, afinal, não tenho como avaliar seu grau de contusão. Mas a impressão que sempre tive é a de o tenista nunca ter levado sua carreira devidamente a sério. Mesmo quando jogava, parecia necessitar de algum desafio, de se divertir na quadra, para conseguir levar a partida a sério e ganhá-la. Não à toa, às vezes corria riscos bobos, perdia partidas fáceis. Quando foi número um do mundo, poderia ter feito o que quisesse, mas ficou restrito a um ótimo atleta do saibro. E nada mais. Não é pouco, mas não poderia ser mais? A função do esportista não é desafiar o seu limite?

Guga acabou sendo um manezinho da ilha a suprir, – sem ser sua intenção, mas jamais contra a sua vontade -, a ausência pós-morte de Senna no imaginário do brasileiro de sucesso que passa a perna nos gringos. Na nossa mentalidade de vira-lata, ver um compatriota se impondo perante os outros não serve de exemplo, mas de desforra. O tenista se encaixou nisso. Poderia ser uma marca no esporte tupiniquim, mas preferiu não perder suas ondas a potencializar sua carreira. Andre Agassi quase fez isso, porém, recuperou-se a tempo de ser um dos maiores de sua geração.

No fundo, não sei quão ruim é isso. O tenista atraiu a simpatia por jamais ter deixado de ser um macunaíma do tênis – alguém a divertir os gringos com seu cabelo esquisito, seu jeito bobalhão, completamente avesso à competição voraz do esporte. Diferentemente de outros heróis brasileiros que trabalharam sua imagem para transformá-la num ícone, como Pelé, até num mártir, como Senna, ou cujo mito se deu pelo fim trágico, como Mané Garrincha. Guga, agora, vai brincar de mochileiro pela Europa. É estranho, mas, talvez, esse seja seu maior mérito. Infelizmente, ninguém parece valorizar isso.

Sábado, 24/Maio/2008

Do metal melódico à chatice interminável

Algumas vezes, como todo ser humano, eu sou tomado por curiosidade mórbida. E, apesar de nunca ter sido um fã fervoroso do estilo vocal agudinho gay, fiquei tentado a baixar o disco novo do Michael Kiske, Past in Different Ways, em que ele regrava clássicos do Helloween com uma “nova roupagem”. Inocente, acreditava na possibilidade de vir algo interessante daí, meio numa linha Anathema, ou até mesmo um pop-rock de qualidade, afinal, melhorar metal melódico não é nenhuma tarefa das mais difíceis. O resultado, porém, é uma choradeira insuportável sem fim.

Parece tudo música de igreja. Não sacro-santa, como uma nova faixa do Judas Priest (“War”) ou o último disco do Manowar. Aquelas canções de missa de crente, à la Padre Zezinho. Aquele violão semi-alegre, os versos cantados como se fossem pregações, mas nunca com um grau de excitação do Padre Marcelo Rossi, sempre mantendo uma serenidade insossa, mesmo em canções belas como “Longing” ou animadas como “When the Sinner” e “A Little Time”. O vocal, que deveria ser o ponto forte, é triste. Muitas vezes chorado, outras tantas num ar de ressentimento, quando, de repente vem aquele grito agudo insuportável, sem pé nem cabeça.

Eu baixei a versão promocional, e elas vêm com os já tradicionais voice-overs para obrigar neguinho a comprar o CD depois (ou fazer o download de novo quando o álbum sair no mercado). Normalmente, eles são um saco, mas confesso ter achado bizarro dessa vez. Naquele clima já citado, de repente o volume abaixa e vem uma mensagem. Felizmente, não era nada gospel do tipo “Thy kingdom shall cometh”. Sim, um cara com voz lembrando o mestre Rainier Wolfcastle nos informando(?) ser o novo disco de Michael Kiske.

Agora, às pedras. Já deu no saco essa lenga-lenga do Michael Kiske chorão. Cada disco é um porre novo, talvez exceto pelo Place Vendome – e reza a lenda que ele foi enganado! -, e esse Past in Different Ways é uma tentativa desesperada de ganhar dinheiro com os fãs do antigo Helloween, já devidamente vacinados contra sua insípida carreira solo ou outro nome imbecil que se dê a ela, como Supared. Kiske tem uma voz fantástica, um alcance absurdo, mas é um cantor medíocre e um compositor horroroso. Não tem o menor talento e precisa de outros direcionando seu vocal para sair algo minimamente razoável.

Se é para ganhar dinheiro, o vocalista deveria engulir o orgulho besta de uma vez por todas e aceitar uma turnê de reunião do Helloween para tocar as músicas do Keepers e pronto. Não que os seus desafetos alemães precisem disso – as turnês até parecem rentáveis lá fora -, mas grana é bom e ninguém vai perder uma chance de ir ao topo de novo. O Michael Weikath é insuportável, mas é o dono da galinha dos ovos de ouro. Unir-se a ele é a solução. Não há nada de errado em lucrar com o passado, apenas é estúpido menosprezá-lo como foi feito nesse disco novo. Quem sai perdendo é sempre Michael Kiske.

Lógico, e o infeliz que se presta a ouvir essa imbecilidade até o final…